Cabimento, por Rosal.

“por isso o lance do poema:
por guardar-se o que se quer guardar.” A. Cicero.

Cabimento.

guardo um poema de Antonio Cicero
quando tu serenizada
quando és minha amada
e és inteiramente

quando entreabertas tuas coxas e boca
ouço o recital sentido
do que guardo
no que guardam teu quarto
e tua cidade alada

recitam baixinho, pequeno
as vozes miúdas dos estalos
e dos silêncios estalados
quando em tuas coxas e costas e nádegas
e belíssimas máscaras e vestidos azuis
e cachos aprisionados na noite
teu tudo guardo junto ao poema

resto no que guarda o momento
que há tempo e me é dado guardar
sou-o oculto momento
sou-a pequena morte
sou a mim mesmo guardado te dar

e de repente e distante do tempo
ouço a voz constante
chamar-me meu o que sou
chamas meu nome presente
flamejando branco-transparente
e agudo e imenso e límpido
e pertencente pertenço ao que guardo
quando tu guardas a mim
e és e sou inteiramente
nos teus olhos revirantes
poema guardo-guardas orgasmo
guardo o que me cabe guardar

Rosal.
Ilustrador desconhecido.