Cadarços, por Rosal.

Cadarços.

 

Os novembros na cidade guardam um ar de metamorfose. Vejo deus em suas tardes – uma moeda de pirata inglês a fazer que pende entre seus dedos imensos. Num lado jaz o ouro do sol dos meses mascados; o negro das chuvas de fim e início de ano e a noite de Carvalho Filho delineiam a outra face da moeda.
São 17h, o céu de nuvens desce sobre a amendoeira da praça. Entre as folhas largas há o resquício de luz do crepúsculo. Se o vento tarda, pequenos grãos membros da árvore flutuam lentamente e pousam na sombra; são versículos de ouro talhados na história.
Ao mundo observo de uma mesa na Holy Hand. O café na passarela da São Sebastião, desses de termo afrancesado. É notório o costume de valor ao que é do velho ocidente – como se sinônimo de sofisticação.
Temos uma moça de seus vinte e poucos anos neste panorama. Está sentada com a largura de uma anfitriã decadente na boulangerie em uma das bancadas de madeira envernizada. Observo seus pés tendo por minha camuflagem O Pescador de Marcello Silva.
Sou escritor – escusa a obviedade. Posto o comentário, acrescento que percebo a moça que nada percebe ao seu redor. Participei de uma oficina com Bráulio Tavares, nesta, ao acaso de sua experiência, escutei em oportuno instante que ser escritor é ser prestador de atenção – desde então embaso o voyeurismo das condutas: os versículos de ouro da amendoeira, os pés da moça, os tênis de cooper aos pés da moça.
E são tais tênis horrendos. As cores grotescas de um teor chamativo que agride o mais da discrição. São caríssimos os tênis horrendos da moça. Tenho uma amiga que possui tamanho gosto pelo desafeto da elegância. Certa vez a questionei o valor destes tênis, como quem nada quer. Passei o resto do minuto boquiaberto na resposta.
Os carros transitam incessantes como meus dedos rápidos na comunhão da bic de tinta preta e do encadernado que hora pontuo. Ruído de pneu no asfalto feito maré revolta; as cores metálicas distinguíveis por costume na velocidade dos 50km/h.
Nos limpos momentos entre velocidades também observo um homem que quase escapa. Não lhe suponho idade maior, apenas o desleixo que envelhece e o semblante caduco. Ostenta nas costelas negras à mostra uma cicatriz esbranquiçada feito traço do quadrinista japonês Suzuki Nakaba: o pescoço de Ban. Porém é feia e penosa e real a cicatriz. Além disso, lhe abstraio uma forma de trovão (faço nota para linhas futuras – uma bela imagem, afinal).
O velho homem que não é velho tem por coberta das vergonhas uma Smolder esverdeada com azul no estilo surfista e por coberta da fome total um saco volumoso com latas de alumínio. Passa rasteiro na atenção do ofício em frente ao café. Chamaram meus olhos seus pés calçados, melhor, o calçado de seus pés. Exibe um tênis de cooper mais sujo que o que tenho – faço-lhe uso apenas em anuais “programas de índio”, como Edson Quirino, familiar querido de Porto Seguro, é de feitio nomear.
Passa o homem como passam os carros e como caem as plumas de amêndoa. O mundo passa no quadro. Passam outros pés de outros contrastes. A moça de tênis caros espera seu cappuccino ou chá gelado enquanto serva do smartphone em suas mãos delgadas. O homem foge de vista na esquina do posto de gasolina. Noto que é bela a moça, que é feio o homem ido e que são terríveis os nossos tênis e as amarras dos cadarços.

 

Rosal.

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