Cartas para Vohan, por Carvalho Filho.

I

 

Lembremo-nos dos dias sem rugas, dias em que brincávamos de deuses. Invencíveis! Seres capazes de vencer com um sorriso as rasteiras da vida. Gozemos hoje as lembranças de um mundo recheado de felicidade, já que ainda somos divindades. Recordemos os passeios ditosos pela Avenida São Nenhum, os beijos espetaculares que faziam nosso coração pisar fundo no acelerador. Meu orgulho fez com que este texto dormisse uma semana na gaveta, temendo as reminiscências ainda presentes no teu coração, sublime Vohan. Aqui o tens tu, sem cortes ou mudanças, tal como o pensei e escrevi. Espero alcançar o mais remoto pedaço do teu coração.

Pela manhã te vi no mercado, ao que parece, comprando biscoitos com uma pessoa nunca vista por mim. Tu sorrias um riso raso, bem distante daqueles que davas estando comigo. Às vezes pergunto a mim mesmo o que aconteceu conosco. Passo tardes revisando antigas fotos, mais minhas do que tuas. Nesse abatimento quase fatal, estremeço pelo quarto. Sou um fantasma fechado naquele corpo antes adorado por ti. Sigo por caminhos perigosos de peito aberto.

Caso penses em voltar para mim, dê um sinal, qualquer coisa: uma carta, um olhar, um gesto. Só não aceito o silêncio. Isso seria insuportável, tão odioso quanto aquela separação via telefone. Tua covardia foi desprezível, fria, maldosa. Desde aquele entardecer aguardo algo mais de alguém cujo amor julguei ter. mas a vida nunca é previsível, de súbito nos assalta. O que é simples para uns é complicadíssimo para outros. Depois de ter visitado meu passado contigo, chego à conclusão de que lá na última camada da consciência eu sabia da enfermidade denominada amor.

Eu jurava que jamais nos separaríamos um do outro. Pegava tua mão e podíamos voar para qualquer civilização. Se o tempo não estava bom, imaginávamos mil aventuras em nossas cabeças. Atravessamos mares sem do lugar sair, apenas queríamos um pouco de solidão dentro daquela horrorosa massa de transeuntes. As noites sempre traziam um caráter místico às estrelas. Olhávamos com espanto a beleza assustadora daquelas fadas.

Diga-me se ainda existe uma partícula daquele amor nuclear que sem medo dos riscos insistíamos em sempre tornar mais enriquecido. Fale penetrando em meus olhos, do mesmo modo que os francos fazem. Não tenha qualquer tipo de medo, eu não causarei mal nenhum a você. É uma pena esse amor ter resultado numa inexplicável explosão. Deveríamos ter sido felizes e não fomos. Poderíamos ter sido infelizes e não fomos.

II

Sabe, Vohan, quando estou solitário repenso em você. Nostalgia dos tempos sepultados. E começo a refletir sobre as coisas lindas que nunca cheguei a falar. Nesses dias violentos procuro nas árvores um vestígio do teu cheiro bom. Aqueles galhos onde nossas cabeças esbarravam… o tronco carcomido onde grafávamos frases de amor eterno. Acabou, Vohan! Acabou. Tuas fotos deponho na mesa, as cartas guardo no coração. Se eu tivesse agido de outra maneira, não estaríamos separados por uma ponte sem fim?

Os corações se contradizem na própria cama, na imaculada despedida dos amantes que já não conservam o desejo de outrora. Por detrás de cada rosto sorridente existe uma alma amargurada, bem sei, sendo eu uma dessas amarguradas almas. Amores imortais não deviam morrer tão facilmente. Os versos que um dia te dei, onde estão? O fogo que deles emanava ainda não se tornou cinza, é brasa que pode aquecer e crescer, tornando-se uma fogueira vigorosa.

Sabe, Vohan, ando por caminhos perigosos desde que te perdi. Um copo de água não resolve minha sede! Porque a sede que sinto é bem maior que tudo. Ela vem dum desconhecido planeta: Dor. Perco-me entre tantas vias. Alguns amigos oferecem um pouco de amizade e atenção, outros estendem as mãos para meus olhos. Mas sempre fujo deles. Tornei-me um andarilho. Becos patéticos escorrem pelas veias deste ser desfalecido.

O mais absurdo é permanecer comovido. Ando tão exilado de mim, que nem mesmo vejo diante de mim os altares que ergui. No máximo vislumbro sombras. Felizmente meus punhos são de ferro, se não o fossem, já estariam dilacerados de uma ponta à outra. Os nervos, malditos nervos, são feitos de seda. Da mais frágil seda que já vi em toda minha vida. Tu não tremes, Vohan. E isto me causa ódio. Como pode alguém ser tão forte? Não há lágrimas no teu olhar, nenhum sinal de sentimento. Enquanto de mim jorram rios de melancolia, de ti nem um esboço ou ensaio sobre o princípio do pranto.

Uma aflição deplorável entra por baixo das unhas, suga o sangue oco das minhas veias. O mais doloroso é não saber a razão pela qual o mundo lá fora continua florido, se meus braços mal conseguem se mexer. Não… Não. Não findarei este dia. Tenho coisas a descobrir. Antes que ele acabe é preciso tirar-me de meus ombros, ou serei pisado por meus próprios pés. O jarro de flores e o jarro de barro servem de ornamento para o ser vazio que aqui dentro de ti, e ali, fora de mim, vive indiferente. Lamento o mundo inteiro sem dizer uma única palavra.

III

Acordei tão triste! Descontente com a vida, sem vontade de sair da cama. Mas lembrei de você, desse sorriso de anjo. Se existe alguém como você no mundo, ainda vale a pena levantar da cama. Fui logo fazer o café, tomar um banho, depois fui ao trabalho. Pensei em telefonar, mas não fiz isso, esperei que você tomasse a iniciativa. Olhava o relógio constantemente, alguma hora você ligaria, é claro que faria isso. Fiz questão de arrumar a casa, até plantei no quintal um girassol no jardim que você nunca viu. Realmente não sei o motivo de minha devoção, deve ser alguma maldição. Tudo estava preparado para a revelação, tudo.

Como já era tarde, jantei sozinho. De raiva quebrei o diabo do relógio, que agora parecia piar no meu ouvido. O amor nos machuca tanto. Por que insistimos nele? Não existe outra pessoa igual ao ser amado, até parece que o mundo perde o sentido sem essa pessoa. Por alguns segundos quis te esganar, esmurrar teu rosto belo, puxar os cabelos cheirosos. Foi apenas um momento insano, nada mais. Claro que eu não o faria. Melhor me torturar, chorar de ódio num lugar onde ninguém possa ver. Posso providenciar a solidão.

O silêncio é tão ameaçador! Tua voz macia é uma lâmina a rasgar meu corpo, tua indiferença um veneno que lentamente assassina minha alegria. Eu queria ao menos te ver de longe, como o girassol mirando o sol. Sinto que está tudo acabado. E olha que nem começou. Estou cansado demais para escrever tudo que desejava escrever. Quando penso que o amor veio para ficar, eis que sou surpreendido pela frieza. Nunca imaginei terminar assim. Se eu te visse agora, não, melhor não! E ainda por cima com essa faca enorme cravada na mesa.

Como esquecer do teu corpo? Como esquecer da tua boca? E principalmente, como esquecer das promessas que fizemos? O sentimento que trago comigo é negativo, próximo da morte. De onde vem o amor? Por que você e não outra pessoa? Logo você, que me trata desse jeito! Há muito tempo tenho andado carregado por minha própria sombra, abaixo de suas asas consoladoras. Um dia, a sombra havia desaparecido. Desde então nada faz sentido. Minhas escolhas tem sido erradas. Vou cortar os girassóis e nunca mais plantar nada no coração. Pois o sol que existia antes, começa a apagar. E o girassol precisa de luz.