Conto de Emanuel Carvalho: Nuvens

Deitada na areia em frente ao mar, seu corpo era uma casa habitada pelos pensamentos inevitáveis. Seus olhos alcançavam apenas o céu manchado por nuvens que passavam, tentava moldá-las: Cisne; chapéu; flores, não, nuvens! Nunca foi romântica. O vento era indeciso corria em várias direções, o mar não, esse sabia para onde ia, lembrou-se de seu pai, como era convicto, intrépido e ela o via austero, não compreendia sua forma de amar apesar de amá-lo. Nuvens. Acariciava a areia e deixava os grãos esvair-se entre os dedos, pensou nos amigos, quantos deixados para trás? Eram grãos de areia que caiam sem importância, “por que sou assim?” Gritou calada. O mar já triscava em seus pés, era como uma saudação de um velho amigo: “Olá, estou aqui, não esqueça de mim”.  Nuvens.

O sol seguia seu destino e as sombras esticavam-se, lembrou das despedidas, de como nunca conseguiu dizer o que sentia no momento do adeus, nem mesmo nos definitivos. Seria frígida ou era apenas covardia? Seus olhos agora eram salgados como o mar, e seu corpo inerte já fazia parte daquele cenário melancólico. Nuvens. A liberdade dos pássaros no céu a incomodava, nunca foi livre, não se permitia ser, entrava dentro de si, era casulo que não transformava borboleta, era casa sem janelas. E agora em frente ao mar queria ser diferente, mas não havia outra chance, pensou em Deus como uma possibilidade e ao mesmo tempo pensou na miséria do mundo, na fome, no sofrimento da carne e viu que não era merecedora da piedade divina. Nuvens, quem poderia enxergar outra coisa além de nuvens? Quem sabe um tolo feliz e ingênuo o qual agora, com os olhos quase cerrados, adoraria ser. Cisne, chapéu, flores…

Emanuel Carvalho (05 de março de 2016)