Crossfit, por Rosal.

Crossfit.

 

Era noite de prece. Padre Cícero regava os corações no embalo. Cinco garrafas esvaziadas em um desatino de Alceu Valença e Zé Ramalho.
– Olha que velho safado! Fí de rapariga!
Daltro Paiva entoava como em oração a Alceu.
– Sabia que ele é da família? Os Paiva lá de Pernambuco(…).
Ignorava respostas. Uma retórica só. Dom concebido às veias de álcool dos alegres e dos tristes. No álcool tudo converge. E era zoada e era baderna e gritaria a casa de Morgana.
O corredor do Condomínio Dirceu é protegido do sol e da chuva por um aparato de zinco. A lua enorme afagando nuvens na madrugada; o céu por consolar lobisomens e amantes solitários. Imagino Vinícius insone, em uma noite como essa, escrevendo seu soneto de despedida. Imagino a mulher branca e linda que Vinícius imaginara em seus quatorze versos – ”perdida uma, a outra abandonada/uma nua na terra, outra no céu”. Mas não é a mesma mulher mesmo que sabidos seu nome, rosto e enleio – assim como a lua não é a mesma de 1940. Qual lua e qual mulher imaginada seria mais bela e branca, a minha ou a do soneto de Vinícius?
A questão se perde ao som do Trupizupe, o galo de campina. Alexandre e Daltro dramatizam zombando de minha resignação. Noto que me falta embriaguez. Peço desculpas sem jeito e permaneço. Os galos cacarejam poemas e afrontas afetuosas. Por um instante invejo suas altas crinas e desejo mais vinho. O vinho acabara cedo. Resigno-me profundamente sob o teto de zinco e a lua parece zombar em coro feito um curumim colegial.
Orestes Barbosa é um fantasma. Sinto seu espectro distorcido no chão de cimento repleto de luar.
– Dessa vez não são estrelas, não é Salgueiro, Orestes…
Penso sugerir a interpretação de Maysa. Desisto. A noite não predispõe melancolia e não sou tão egoísta.
A madrugada é imensa como a felicidade. Daltro se despede com pálpebras baixas e leva consigo a alegria; Alexandre ao chão semiacordado balbucia todos os infortúnios da vida enquanto o acolho como se faz a um filho pródigo. Levanto-o, tropeçamos; o caminho é um zigue-zague desastroso; a havaianas de meu pé direito se enrosca no nada e quebra, abandono-a na penumbra e sigo a jornada manca. Enfim, a quitinete. A porta entreaberta do casal: Morgana sob o cobertor grosso e o olhar sonolento:
– Bota ele aqui na beirada, Rosal.
Alexandre deve pesar seus 80 kgs. Pareceu-me o dobro… Maldito Padre tinto; e era empurrão e ajeitada e o erguia de cá para lá e o reverso e novamente… Hércules constrangia-se no túmulo perdido.
– Nossa, tá bem direitinho na cama! Ninguém tinha conseguido fazer isso até agora.
E assim inventei uma nova modalidade de crossfit: levantamento de poeta. Dormi ofegante na rede da sala. Nem uma gota de suor pendendo para que se dissesse justo meu esforço. A lua ninando além do zinco a mim e a Vinícius – onde quer que estivesse.

 

Rosal.

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