Deitar-se de sapatos, por Carvalho Filho

     Não estamos preparados para perder uma pessoa próxima, seja um amigo ou um familiar, pois nossa vida também é feita daquela pessoa. Quando morre um amigo querido ou um parente, vai com ele uma parte nossa, um “pedaço de mim”, como na belíssima canção de Chico Buarque. Porém, a vida continua para os que aqui estão. Quanto maior a proximidade, um pai, mãe ou irmão, por exemplo, maior é a dor. As pessoas lembram das fotos das reuniões da família, das piadas que o falecido contava, dos gostos, da música preferida etc. Morrer é de um mal gosto tremendo. Ninguém deveria morrer. Deveríamos nos transformar em estrelas ou em flores, como nos mitos gregos. Seria mais bonito se assim o fosse. Em lugar de um caixão teríamos o céu ou teríamos o perfume de uma rosa. Mas há um lado bom na morte, meus amigos. Como disse Quintana:

“A morte é a libertação total:
A morte é quando a gente pode, afinal,
Estar deitado de sapatos…”

     A vida é um fardo do qual a maioria não deseja livrar-se. Muitas vezes reclamamos dela, mas somos como aquele lenhador da fábula que clamava pela morte constantemente, até que um dia ela apareceu na sua frente. Ao ser indagado acerca das súplicas, ele responde: é que eu preciso de alguém que me ajude a carregar a lenha. A lenha é a vida, e nós, o lenhador. Retomando Quintana, deitar-se de sapatos é o suprassumo da descontração, da quebra com os protocolos que regem nossa vida. O gesto final de irreverência e libertação. Luís Henrique Pellanda traz uma poética imagem sobre o vazio deixado pelo falecido em Saída de cemitério:

     “E lá, na casa que foi do morto, juntamente com a noite, uma lacuna começa a se instalar, uma nova ordem vem arrumar a cama da saudade, aquela que jamais será desfeita”.

     Encerro este texto desejando paz nos corações, paz é tudo nessa hora na qual predomina o espanto e a lágrima. Pois a vida, apesar do sofrimento, continua. Uma palavra amiga não faz o tempo regredir, mas serena um pouco os soluços descompassados e o peito gritante. Se a saudade passasse que equívoco seria! Não. Ela é um laço inquebrável.

Carvalho Filho

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