Entre a casa, a escola e os fogos de artifício.

     O ano é 1988. Com sete anos de idade encontro-me, de frente ao Armazém Caboclo, com alguns trocados na mão. É mês de junho, e como de costume nessa época, a vida se dividia entre casa, escola e fogos de artifício. Da simples bombinha ao foguete, comprava quase todos os dias, com o que sobrava do dinheiro da merenda do colégio. Quem me vendia era o Sr. José Maria Thomaz Sobrinho, dono do estabelecimento, e que me aconselhava a ter cuidado na hora de brincar com os fogos. Despedindo-me dele, já com o saquinho de bombas e traques na mão, me dirijo à casa de um amigo, Bernardo Borges Silva, onde de lá fomos juntar latas, no intuito de estourá-las. Encontrando as tais latas, posicionamos a bomba, riscamos o fósforo, acendendo o pavio, colocamos a lata em cima, esperando o grande momento do estouro, por um segundo pisco os olhos e me vejo sentado à frente do Sr. José Maria, 20 anos depois, que me relata: “Nasci em Santana do Acaraú – Ceará, em 11 de novembro de 1946, e logo fui trazido para Parnaíba, por meus pais, quando tinha menos de 1 ano de idade, sou primogênito de uma família de 12 irmãos”.  José Maria iniciou sua vida profissional muito cedo, aos 10 anos de idade, trabalhando em várias lojas e repartições públicas da cidade. No ano de 1960, aos 14 anos, começou a trabalhar no Armazém Caboclo, fundado pelo comerciante maranhense Celso dos Santos Veras, e comenta: “o nome Armazém Caboclo deve-se ao fato do Sr. Celso Veras ter trabalhado, quando ainda jovem, em uma loja do ramo de ferragens em Belém-PA com o mesmo nome”.

 Imagem  Sr. Celso dos Santos Veras

          Esta relação: patrão-empregado, logo se transformou e fez com que José Maria se tornasse sócio da empresa, como o próprio Celso Veras dizia: “ele é o filho que não tive”, pois o mesmo havia perdido seu único filho homem. Em meados dos anos 60, José Maria, passa a ser o titular da empresa e seu pai (como o considerava) e patrão, Celso volta a concentrar seus negócios na cidade de Tutóia onde mantinha residência. José Maria manteve o Armazém dentro dos mesmos padrões de seu antecessor, sempre voltado para o comércio de gêneros alimentícios, ferragens e os tradicionais fogos de artifício. Foi auxiliado também por um tempo, por seu pai biológico, José Thomaz Lourenço Neto, que passou a assessorá-lo, após a aposentadoria como funcionário público federal.  Por cerca de 20 anos José Maria lecionou na rede estadual de ensino de Parnaíba, no período noturno, enquanto que durante o dia cuidava do Armazém, foi professor das disciplinas de Estudos Sociais e Geografia, nos colégios Lima Rebelo, Raquel Magalhães, Premem e Escola Normal, e enfatiza: “aprendi muito no magistério, não apenas ensinei aos alunos, mas também eles me ensinaram”. É casado há mais de 30 anos com Rosângela Moreira de Albuquerque e teve 3 filhos: Liana, José Celso e José Maria Thomaz Júnior. Mais tarde no final da década de 90, em virtude de sucessivas crises no ramo de perecíveis, o Armazém Caboclo passa por uma transformação em seu ramo de atividade, se especializando no comércio de ferragens e ferramentas, sem deixar também os fogos. Hoje conta com um completo sortimento de ferragens e ferramentas, materiais elétricos e hidráulicos, no setor de fogos de artifício, vem diversificando, trabalhando com montagem de shows pirotécnicos em toda circunvizinhança de Parnaíba. Sempre recorda com admiração, do Sr. Celso Veras, personagem deveras importante em sua vida, “tínhamos laços muito fortes de amizade, confiança e respeito”, tanto com ele, como com sua família, a esposa Umbelina Conceição, que considerava minha segunda mãe e suas filhas Teresinha, Eunice e Felicidade Veras, que sempre tive como minhas irmãs”. Num exemplo de que nem sempre o sangue é o mais importante, numa relação afetiva, o professor José Maria nos ensina uma importante lição, que deveria ser seguida por todos. Talvez dessa forma o mundo se tornasse um pouco menos áspero e frio.

         Ao fim, encerro a entrevista, contente por mais uma conversa com esse Senhor que considero hoje um amigo, e feliz, por enxergar em seus olhos sensíveis e experientes, o mesmo respeito e admiração aos quais tenho por ele. Relembrando o que ocorreu há 20 anos, tento lembrar se a bomba funcionara ou não, é difícil pois a memória é algo que sempre está nos “pregando peças”,  porém sinto que se explodiu ou não, é questão de mero detalhe, pois no fim das contas não são os objetos ou ações que importam, na hora de recordar, mas sim as pessoas e os sentimentos, por quais passamos nessa constante luta chamada vida.

Claucio Ciarlini (2008)

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