Eros (eu não vou falar de amor), por Alexandre César

Se já fiz cartas, hoje todas vou queimar,

As paredes já viveram o momento

Se já disse hoje vou calar

Acabaram os tapas, enfim cessaram os beijos

Eu te falei que estaríamos hoje nesse entorno

Nesse beco sem retorno

Entre a lembrança e o rancor

Eu não vou falar de nós,

Eu não vou falar de amor.

As paredes tinham ouvidos

Já não somos mais amigos

Ou amantes o que for

O que direi é que acabou

As pastilhas entre bocas

As partidas entre roupas, nuas.

Em rompantes um delírio de Cervantes

Não há Dom que Choque mais

Que o toque tenaz dos ex-amantes

Nada, que maldiga mais,

Que a recaída

Sem pratos frios ou prantos rios,

Nem choros em pigarro

Ou bitucas acessas nos cinzeiros

Em um criado mudo ao lado da cama

Na rima que omitiu o autor

Já não vou falar de amor,

Só do que às vezes acomete

Homens e mulheres

Com tamanha crueldade

Que só a realidade das mentiras

Pode ter…

Não que havia algo que denunciasse

O bule que apitasse,

O horário atrasado

O embarque, o desembarque

O despertador

O café da manhã posto na mesa

Que esfriou…

Tudo acontece num tempo

O laço eterno

A cama partilhada

O piscar de um flerte

Um cuspe que seca na calçada

Um zíper que desce outro que levanta

De uma calça que arranco

Ou de um vestido branco

O laço afrouxando

A cama, partilhada

O cuspe secando

O eterno escorrendo

Entre o ouro das mãos

Um olhar que diz sim

Outro faz que não

Condenam à despedida.

A papelada…

O cuspe quase, completamente seco

Como uma vergonhosa assinatura

Que tudo diz, sem mais ser acrescentada.

Como faz o silêncio (decidido)

Em frente à joalheria

No mesmo sol quente

Que seca o cuspe

E limpa a calçada

O que sei desse tempo é que acabou

E que eu te disse, por que disse!

E me lembro que acordou

Eros, que bem te quero,

Que mal te quero,

Que bem te quero,

Que mal te quero…

Já não falo mais de amor.

 

Alexandre César

 

* Imagem fonte: Web