Há mais coisas entre Campo Maior e Brasília do que podem imaginar nossas vãs rodovias, por Rosal.

Há mais coisas entre Campo Maior e Brasília do que podem imaginar nossas vãs rodovias.

 

Tenho duas irmãs, era dia da mais nova. Formatura de ABC. Aquela coisa só: festinha boa, docinho, salgadinho, criancinhas por toda parte cortando atenções e berros de mães. Tudo diminutivo e solene. Meu pai trajando terno e gravata, muito elegante.
– Vou lhe chamar deputado, sr. Fernando Antístenes.
Falei-lhe ao ouvido, sorrindo, com massa de empada entre os dentes e gosto de refrigerante na garganta. Fui a Teresina com este propósito: prestigiar minha irmãzinha e a mais uma conquista de meu pai. A vida é boa nas conquistas, desde que pequenas. As grandes conquistas, por mais úteis, são castrações da ambição. Eles estava gentilíssimo enquanto na condição de anfitrião (assim me ensinara a ser e o agradeço).
O parente distante, ao ver o bigode curvo e cavanhaque, me compara a Picasso – para desgosto da família, certamente. Fiz que sim e condescendi ao tom de estranhamento por trás das palavras do digno familiar, mais para manter postura diplomática que por bom humor. Não era tempo de maus olhares e más palavras. Mas não me recordo de um Picasso de bigodes. Ri intimamente. No íntimo ainda sou cruel, mesmo em festinhas de crianças.
O bilhete de volta marcado para o dia seguinte às 16h. A mala cheia de doces e um McChicken para Aline. Às vezes o amor se esconde em lollipops and chips, outras em sanduíches industriais ou brigadeiros, rosas e clichês. O amor em cada mordida afetuosa, em cada olhar de flor morta. O estômago e o coração interligados palpitam a mais bela sinfonia humana. É de um prazer inefável compartilhar a gula ou a beleza de uma rosa com a mulher amada. Mínimos prazeres que tornam a vida sustentável por trás do incômodo de todo dia por ser vida ainda, crua e simples, in vitreo.
Rubem Alves, em Ostra feliz não faz pérola, escreve que só os poetas sabem que um ovo é bem mais que um ovo, quando fala de sua infância e da forma como comia ovo de gema mole no pão, assim como seu pai e a família reunida em um interior de Minas. Nosso Rubem escrevera tal passagem já de cabelos brancos, os que restavam da calvície. Dissera que ainda gostava muito de ovo de gema mole, não por papilas gustativas, mas por nostalgia. Mais um cronista sentimental para o grupinho. Hoje gosto bem mais de McChicken e brigadeiro rosa, não por minhas papilas, mas por Aline e o que há de memória.
No Guanabara de retorno à Parnaíba assentei-me na primeira poltrona, de fundo com a janela do ônibus. Havia uma moça de longos cabelos cacheados e olhar carente na de número 03. No Guanabara Executivo assim se dá: são agrupadas em duplas de fileiras as poltronas; dois extremos subdivididos por um estreito corredor de tonalidade escura, cada lado com x número de pares. 01 em conjunto com 02, 03 com 04 e por conseguinte. A viagem corria indiferente até o ponto de Campo Maior, salvo o passageiro de alguma fileira posterior e seu breguinha de volume audível. Uma insensatez pontual mas nada de novo sob o sol. A portinhola que separa o motorista se abre e uma voz de ganso brada:
– Campo Maior desce!
O timbre de Nelson Gonçalves me chama a atenção na rodoviária da terra da carne de sol. Ninguém desce. Sobe um senhor de boné verde recheado de propagandas e números de telefone grafados, calça jeans azul, camisa de botão semiaberta e sandálias de couro. Típico senhorzinho de interior, daqueles que batem dominó nas praças discutindo políticas argutas – quanto maior a voz, melhor o argumento. Toma a 04, se estabelece sem bagagens de mão em par com a moça. Passados quilômetros da cidade a moça bonita atende seu celular e põe-se a gracejar coqueterias com o suposto namorado na linha. Ouço seu sotaque diferenciado de Brasília até o sinal cair já fora de alcance. 19h marcadas e Piracuruca:
– Parada para jantar. Vou fechar a porta.
O motorista holofoteia e todos têm de descer dessa vez. Pauso minha leitura fugaz de um poeta paulista, Ygor Moretti. Compro um suco de laranja na lanchonete e aguardo fora do espaço de alimentações. Escrevo hoje por esta imagem que me fora dado observar: o senhorzinho de boné verde oferece uma coca-cola como cortesia para a moça de Brasília. Um gesto quase infantil, anacrônico. Ela reluta, ele insiste sutilmente, ela cede. Dez metros nos separavam, não pude notar a expressão, conjecturo, surpresa da moça, apenas o canto de boca arqueado em sorriso discreto do cavalheiro de Campo Maior.
Quisera eu, além do que já tenho, o poder de gravar, não apenas na memória, que a memória desbota, mas na máquina das pupilas o que passa no charme dos dias, feito um cinegrafista. Os reproduziria, como se faz em um media player, os instantes irrecuperáveis, brincando de super-homem, destituindo da vida a semântica do irrecuperável. E agora mesmo sou mais que infantil, sou mesquinho, ultrapasso o senhorzinho de boné, cruzo a linha de chegada em meio aos aplausos pejorativos de um deus que conhece o valor da efemeridade e não há graça neste pódio. Mas não sou um rapaz tão estúpido. Apenas exponho aqui meu sonho de criança e se me fosse permitida sua realização, renunciara de pronto.
Que poeta nega o sabor do irrecuperável? Que há de mais sensível que o azedume da saudade? Aquilo que não se pode embalar nos braços, pois não há braços que abarquem. Que seria da paixão e dos apaixonados? Renuncio o media player de deus e dos super-homens inexistentes! Abandono o sonho. Mais vale a memória que desbota… Guardo, contudo, nestas páginas, uma lata de coca-cola (que não é minha), a gula de minha amada, uma rosa morta e o momento, que é tudo que me sobra.
De resto, fora desinteressante a viagem. Não trocaram mais que cumprimentos o par ao lado. E desce Cocal, desce Buriti, desce Parnaíba às 23h e 30m. Contabilizo, em casa, o fim: atropelei cem páginas de poesia e dormi culpado por assassinar um paulista na rodovia. Nada sonhei.

 

Rosal.

DEIXE SEU COMENTÁRIO