Interior, por Jailson Júnior.

Interior.

 

Uma ótica absoluta guia os delírios do mundo e as prisões da mente, do amor e do moderno. Seria de uma profunda e dissimulada imprecisão tentar conceber o vício de hoje e a temerária esperança em um futuro que só existe no selvagem desvario das nossas cabeças. E nem adianta remendar as feridas ou curá-las com sal e ódio. Elas precisam doer e corroer até onde vai o limite do certo e do duvidoso, e até onde valer o esforço do guerreiro, fazendo real que a dor é tão humana quanto a felicidade.

Há uma tangente em quase todas as ilusões mundanas. Elas beiram o surdo e o absurdo, e tendem a surtir efeito quando há a necessidade de dar um norte ao vil e curto combo de dias que nos foi dado. Sempre há um mito no qual acreditar. Uma teoria vívida no manifesto e no terno dos desacordados, na roupa dos mendigos e nas matizes cotidianas. As teorias mastigam e convivem, afinam e desafinam, dançam e definham, e passam a mão da dama para o próximo interessado. Sobram artifícios, faltam trejeitos.

Mesmo na salutar aurora repentina, jaz na cabeceira da cama, acima do criado-mudo, mais uma esperança. Nem adianta tentar recusá-la. Ela está lá porque se precisa dela. Seu artigo é o silêncio e seu adorno é a atitude. Tornam-se famigeradas ao extremo, e fadadas ao uso eterno. Ela deita no teu peito como a menina de bochechas rosadas e sorriso feliz, e o cabelo dela roça o pescoço numa uma deliciosa mistura de ação e gosto libidinoso. Por vezes, ela traz consigo uma sequência de sensos críticos e algo mais.

Quando não, teima nos relatos queixosos e nos ranços diários. Subidas e subidas e barulhos abafados na noite escura e fria de Novembro, queimando calorias e esquecendo das mazelas da vida. Nem sempre agir é um bem necessário. Calar também é válido, quando não, honesto. Não apunhala, fere ou bate. No máximo, uma guerra entre tu e tu mesmo. As gaiolas estão de portas abertas, cada um termina seus segundos na que melhor lhe convém. São apenas conjecturas, não mais que cautas borboletas, feitas longe demais dos prazeres e das capitais.

 

Jailson Júnior.

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