Meditações, por Carvalho Filho

Vinte e nove abismos
Vinte e nove passos
Vinte e nove versos
Vinte e nove
Estou passando
Da larva à cigarra
Do fogo ao gelo
Do Sol a Plutão
Vinte mais nove

Vinte e nove a mais
Ou vinte e nove a menos?

E ainda não sei se o homem
É mesmo um bicho triste
Se o homem é girassol
Ou milharal no horizonte
Resta-me o benefício da dúvida
Resta-me o silêncio
No espelho ainda sou
No espelho ainda estou
Aos pedaços ou inteiro

Vinte e nove a mais
Ou vinte e nove a menos?

Há tanta gente por perto
Acho que não devia me sentir só
Mas o ser humano é penhasco
Como será daqui pra frente?
Tem sido bom demais
Dizem que todo bem acaba
Vinte e nove badalos
De um sino às vezes gárgula
Outras vezes Apolo

Vinte e nove a mais
Ou vinte e nove a menos?

Meu verso é vinho suave ou seco?
A palavra Hoje é minha âncora
Não sei do amanhã
O amanhã é como uma aposta de Harvey Dent
O Hoje me acalanta
Vivamos agora
Em meio à noite
Em meio ao brilho lunar
Obrigado

Vinte e nove a mais
Ou vinte e nove a menos?

Sentir-se amado aumenta a chama
Apesar de a chama ser tão frágil
Compelidos à montanha
Já não nos agrada a caverna
Só nos agrada e comove o voo
Só nos abraça a ventania
Não mais o marasmo da calmaria
Vinte e nove galáxias
Dançam no peito revigorado

Vinte e nove a mais
Ou vinte e nove a menos?

Dias assim me fazem acreditar
Esperar pelo melhor
Embora eu venha descrendo da vida
Dias assim me povoam de utopias
Se a vida é passageira
Tenha eu a leveza de sua brevidade
Pois até o cacto tem uma flor
E cantam em segurança os loucos
Na comodidade de suas poltronas

Vinte e nove a mais
Ou vinte e nove a menos?

Neste instante os sinto a mais
Como se a vida me fosse acrescentada

Carvalho Filho
(Em Carcosa)
17-10-2017