Mulheres educadoras e a Literatura: vidas e contribuições rompendo o silêncio, por Erika Ruth Melo da Silva

            A historiografia e os estudos literários têm revisitado as contribuições femininas para a literatura brasileira. A busca é por mudar uma tradição interpretativa acerca da atuação das mulheres em espaços historicamente masculinos, como é o caso do mundo das letras. Essa tradição ora as coloca à sombra de um homem, ora as demoniza ou erotiza, dando uma interpretação que aponta para a insignificância. É por isso que, com um novo olhar, os pesquisadores agora se voltam para essas mulheres, sejam as injustiçadas pelo preconceito do Brasil de outrora, sejam aquelas cujas atuações residem abaixo das diversas camadas do tempo.

            Um dos pontos que nos leva a descortinar uma vasta contribuição dessas mulheres é quando olhamos as intelectuais que uniram o processo de criação literária com a atuação no magistério. Nesse sentido, abrem-se mais detalhes a serem analisados, além das escritoras que se dedicaram a ensinar: as escritoras que tiveram parte significativa na formação de grandes intelectuais do Brasil, as que foram filhas de professores e as que, como educadoras, foram responsáveis pela fundação de grêmios literários, escolas e na constituição de uma literatura direcionada a um público feminino, como ocorreu no início do século XX.

            A começar nosso passeio em busca dessas senhoras, encontramos em 1831 a escritora Nísia Floresta que, em um período que a imprensa ainda chegava ao Brasil, dirigia uma escola para moças e escrevia para jornais. Defendendo posições abolicionistas e republicanas, publicava “contos, crônicas, poesias e ensaios, nos quais defendia suas ideias[1]”. Se corrermos ao final do século XIX, à frente encontraremos Júlia Lopes de Almeida, considerada a primeira romancista do Brasil do século XX, embora pouco estudada. Conhecida pelo meio intelectual como Dona Júlia, a escritora foi dramaturga e romancista, em um período que o Brasil carecia de produções nesta área, assim como unia a função social de esposa, mãe de cinco crianças, com a escrita de mais de quarenta volumes, com destaque para os folhetins do Jornal do Commercio, quais sejam: Cruel amor (1905) e A Silveirinha (1913). Júlia era filha de dois professores, o casal dirigia uma escola na cidade de Campinas, dos quais a menina recebeu apoio no começo de sua escrita, pois por causa da mentalidade que vigorava, em destinar a mulher apenas para os cuidados do lar, a autora achava que escrever seus versinhos era algo errado, confessou em entrevista a João do Rio (João Barreto), para a coluna “O Momento Literário” que “era como um prazer proibido! Sentia ao mesmo tempo a delícia de os compor e o medo de que acabassem por descobri-los[2]”. Superado o medo, a autora rompeu com o tradicional idealismo dos romances de folhetins destinados às meninas e o costume de serem escritos por homens. A narrativa de Cruel amor tratou, por exemplo, em um realismo ousado, da violência doméstica e da falta de oportunidade das moças pobres da Belle Époque.

            Em se tratando dessa escrita de mulheres para os jornais do Brasil no início do século XX, surgiram revistas voltadas para o público feminino e com textos escritos por mulheres, algumas com posicionamentos sobre a condição da mulher brasileira, como foi a revista semanal Alma Feminina. Outras revistas eram porta-vozes das produções das moças que faziam parte de grêmios literários, fundados pelas professoras de História ou Língua Portuguesa, como foi o caso da revista Raios de Luz, vinculada ao Grêmio Literário Madre Savina Petrilli, fundado pela professora e escritora Maria da Penha Fonte em 3 de maio de 1938, do Colégio Nossa Senhora das Graças, em Parnaíba no Piauí. Essa agremiação reunia apenas meninas, com vistas no aprimoramento da escrita e da espiritualidade. Maria da Penha acreditava que esse estímulo literário que as professoras deviam dar às suas alunas era papel crucial do exercício de sua profissão, mesmo que lhe acarretasse grande esforço em reunir e motivar as jovens. A professora escreveu na décima edição da revista um convite aos educadores: “sacrifiquemo-nos um pouco e vamos ao encontro do nosso povo, dessa multidão que nos rodeia faminta de saber. Transformemos as nossas escolas, nossos ginásios, em viveiros sadios de aprendizagem[3]”; há, pois, uma inquietação perceptível nessa fala da educadora, diante de um Piauí em que poucos tinham acesso à educação e à literatura. A revista Raios de Luz “se estendeu de 1938 a 1953 – somando um total de 15 números, posto ter sido anual[4]”.

            Pela fala de Maria da Penha, percebe-se a carência do Piauí e do Brasil de uma educação solidificada, visto que o analfabetismo até hoje desafia os governantes, por isso no início século XX, com ausência de grupos educacionais ou de condições dos pais para educar seus meninos, professoras eram chamadas para lecionar a domicílio, dentre elas destaca-se a poetisa parnaibana Francisca Montenegro, autora de, dentre outras publicações, versos belíssimos escritos para o jornal Nortista em 1901[5] e crônicas para o jornal Semana[6] em 1910. Além dessa, havia Dona Marocas Lima, responsável pelas primeiras letras de Ademar Neves, Humberto de Campos e Berilo Neves, os dois últimos grandes escritores, e o primeiro, importante político da história de Parnaíba. No livro A face oculta da literatura piauiense o autor afirma que os jornais anunciavam as aulas domiciliares, para as quais as professoras aceitavam “alunos menores de 7 a 10 anos pela mensalidade de 3$000 réis[7]”. Como exposto, a atuação dessas senhoras, mesmo que, hoje, pouco lembradas, inquestionavelmente lançou bases, tanto pelo exemplo como pela motivação dos seus alunos para a formação de um campo de intelectuais no Piauí.

            Dentre estas também se destaca Onesy Couto de Mello, figura que o Almanaque da Parnaíba, em edição de 1930, conclama como “professora normalista e inspirada poetisa[8]”. Acima dessa descrição veio a fotografia da moça, com aparência de seus vinte e poucos anos; abaixo, uma poesia com perfeita rima intercalada, demonstrando um talento incomum para a época, em uma mulher de pouca idade que dominava a arte da versificação. As temáticas e o romantismo dos versos da jovem professora Onesy Couto nos fazem lembrar a doce Luiza Amélia de Queiroz que, juntamente com a aura romântica de 1875, teceu fortes críticas aos desafios vividos pelas mulheres que no Piauí tentavam espaço na literatura, disse ela que “A mulher que toma a pena/ para em lira a transformar/ É, para os falsos sectários,/ Um crime que os faz pasmar[9]”.

            Apesar dos percalços denunciados pela poesia de Luiza e pelos escuros impostos pelo tempo, essas mulheres se fizeram ouvir por suas atuações pontuais e vontade declarada por Maria da Penha, que era a de, por meio da educação, levar a luz da literatura a todas as gentes. Essa vontade que, mesmo em meio ao silêncio diante do talento de tantas mulheres, ainda se mostra, sutilmente como antes, nas instituições de ensino. Ao convite de Maria da Penha, hoje atendem inúmeras educadoras e escritoras, vê-se alguns exemplos como o de Vanda Santana, que promove todos os anos um grande Sarau Literário, envolvendo unicamente estudantes do Instituto Federal do Piauí (IFPI), onde, por meio do teatro, canto e dança, meninos e meninas vão do arcadismo à bossa nova de Vinícius e Tom Jobim. Nas escolas particulares destaca-se a professora Rossana Silva, que anualmente incentiva alunos à participação do Salão do Livro de Parnaíba (SALIPA), promove orientação profissional por meio de palestras, os motiva a leitura e escrita e, depois de anos de ensino de literatura, hoje é responsável pela formação de inúmeros outros profissionais, escritores e professores.

Recentemente foi lançada a obra “Entre trilhos e dormentes: a estrada de ferro central do Piauí na história e na memória dos parnaibanos (1960-1980)” na qual a professora Dalva Fontenele faz importante trabalho para a historiografia piauiense, essa mesma que lecionou na Universidade Estadual do Piauí, campus de Parnaíba, formando professores e historiadores no trabalho com memória e história oral. Soma-se também a essas a jovem professora Naira Castelo Branco, fundadora e coordenadora do grupo “Mulheres em pauta”, por meio do qual promove conscientizações para a melhoria da segurança das mulheres da zona urbana e rural do Piauí. Naira apresentou em julho do corrente ano, na Universidade Federal de Santa Catarina, um trabalho que resulta de sua pesquisa de Mestrado, sobre o combate à violência de gênero. Vale também citar a professora Algemira de Macêdo Mendes que, saindo do interior do Piauí para estudar, tornou-se a única pós-doutora em literatura no estado na área de estudos femininos. Após a última formação em Portugal, Algemira hoje coordena o Mestrado em Letras da UESPI de Teresina. Com o maior acesso à educação e com oportunidade não desfrutada por mulheres do passado, lembrar as acima citadas nos serve para dimensionar a contribuição que atualmente fazem.

            Entre essas, muitas outras educadoras e escritoras registram na história da literatura brasileira não somente o nome de algumas mulheres, mas um percurso a ser respeitado, envolvido de preconceito, barreiras transpostas e injustiças, bem como um ideal que, por séculos, mulheres têm se dedicado, que é unicamente o acesso igualitário à educação, à literatura e ao direito justo de serem reconhecidas pela história.

Erika Ruth Melo da Silva

[1] ZINANI, Cecil Jeanine Albert. História da literatura: questões contemporâneas. Caxias do sul: Educs, 2010. p. 50.

[2] RIO, João do. O momento Literário. Rio de Janeiro: Ganier, 1905. p. 23.

[3] FONTE, Maria da Penha. Função social do professor. Raios de Luz, 1948, p. 24 – 25.

[4] CIARLINI, Daniel Castello Branco. Literatura, imprensa e vida literária em Parnaíba. Parnaíba: Gráfica e Editora Sieart, 2016. p. 132.

[5] MONTENEGRO, Francisca. Se me amasses. Nortista, 20 abr 1901.

[6] MONTENEGRO, Francisca. Devaneio. Semana, 19 jul 1910.

[7] CIARLINI, Daniel Castello Branco. A face oculta da literatura piauiense. Parnaíba: Gráfica e Editora Sieart, 2012. p. 254.

[8] ALMANAQUE DA PARNAHYBA. 1930, p. 121

[9] QUEIROZ, Luíza Amélia de. Flores Incultas. 2 ed. Teresina: Academia Piauiense de Letras; EDUFPI, 2015. p. 60.

Salvar