Natal sem Luz, por Zilmar Júnior

A fome, velha companheira, nos bate à porta outra vez.

Mais um natal comprometido pela arte da miséria. Ao som dos sinos da igreja e com a imagem de ceias fartas na pequena Tv de 14”, contamos no chão, os restante das moedas que sobrou de troco da compra passada: dois pães e um pacote de café.

 

Meu filho, o mais novo, chora no quarto, o estomago provavelmente lhe dói. O maior, Pedro, volta da rua, merendou na vizinha e fez um “bico” limpando um quintal de uma casa da rua de trás. Com as moedas que achamos já daria para comprarmos alguns ovos e quem sabe mais um quilo de arroz.

 

Éramos, apesar da grande pobreza, uma família unida. Meu marido, José, também deve aparecer na história, está preso, por furto. Foi pego com um brinquedo no supermercado do centro. O policial que lhe prendeu, Herodes, mora aqui ao lado. Sua mulher, Helena, é excelente pessoa, ele nem tanto, bateu no pai de minhas crianças como ele bate em sua esposa. Meu filho come na casa dela, escondido, é claro.

 

A água fora cortada e a luz, provavelmente amanhã é o dia dela: 25 de dezembro. Não é um dos melhores presentes que se possa ganhar, mas, ainda temos saúde e um pouco de força. Tínhamos uma bicicleta também, mas tivemos que vendê-la.

 

Meu filho pequeno volta a chorar no quarto, eu o amamento. Dessa vez, seu choro foi diferente, foi um choro de adeus. Uma outra dor de parto brotava em mim naquele momento. Via seus olhinhos se fechando, pouco a pouco, e com um semblante pálido, a Deus ele ia. Levava consigo meus pedidos, minhas aflições e minhas súplicas.

 

Pelo o indulto de natal, seu pai nos fazia uma surpresa, trazia uma bola e uma roupinha de bebê do seu time de coração. Foi preso outra vez. Agora preso às lembranças, às memórias, preso à cena de não ver seu filho o chamando de papai.

 

À noite, no velório, somente as luzes das velas iluminavam aquele lugar. Vieram um dia antes. José, emocionalmente abalado, agrediu um dos funcionários da empresa de energia elétrica, (na verdade quase o mata), Herodes, ouvindo da confusão, de imediato veio. Armado e trazendo algemas, mais uma vez prendeu meu marido. Helena observa de longe. Eu via o próprio inferno diante de meus olhos e Pedro, dentro de sua menoridade, pegava uma arma no quarto e a engatilhava, enquanto todos choravam lá fora e à beira do caixão.

 

 

Zilmar Júnior

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