O Exorcismo nos Tucuns, por Leonardo Rodrigues da Silva.

“Eis os milagres que acompanharão os que acreditarem: expulsarão os demônios em meu nome…” (Mc 16,17).

A figura do demônio é sempre presente na cultura do cristianismo, tendo sua imagem associada aos ídolos pagãos e a deidades próprias de cada povo que era colonizado e catequizado. Aqui em Parnaíba, havia a presença de poucos padres e era quase inviável a contínua formação cristã dos mesmos e assim as pessoas viviam uma mistura sincrética de religiosidade popular, com práticas indígenas e negras. Mas com o advento do século XX e a presença constante de alguns religiosos e padres aqui na cidade, vez ou outra surgiram casos sérios de manifestações estranhas e dignas de um livro de demonologia. Surgira então em Parnaíba, um jovem e recém-ordenado sacerdote chamado Antônio Sampaio de Soares, foi designado a esta região do litoral, para cuidar das almas e das desobrigas do povo dos roçados e pescarias. Era um intelectual incrível e de uma sabedoria invejável, possuía uma oratória incrível e uma sensibilidade poética tão apurada que estava entre os poetas mais conhecidos. Um dos casos mais curiosos e que poucos sabem é o do exorcismo que este renomado sacerdote executou em terras parnaibanas. Ele não era, de certo modo, oficialmente um exorcista especializado pela Igreja, mas como era um faz-tudo em nossa cidade, se dedicava com afinco a todas as funções eclesiásticas ou não, para cuidar do povo desta cidade, de modo especial aos menos favorecidos. Um dia, ao chegar a sua paroquiasse dirigiu a Capela do Santíssimo Sacramento e ajoelhou-se próximo ao tumulo de Domingo Dias da Silva para rezar e fechar a Igreja depois de um dia tão puxado: missa, aulas, exéquias, novenas, terço e visita a doentes… Mas agora era seu instante de silêncio pessoal e descanso. Passos apressados e ligeiros caminhavam sob o velho piso da catedral. Era seu Camilo pescador que vinha apressado. Padre Antônio olhou o mulato que corria de forma desesperada naquele espaço sagrado e se ergueu para dar-lhe a repreenda sacerdotal tão própria e tão famosa, mas via no rosto do negro pescador algo assustador que o atemorizava.

– A benção padi, se regalou o negro.

– Deus abençoe meu filho – respondeu presbiteralmente-mas que apoquentação é este homem de Deus?

– Oh Padi Antônio é Zulmira, minha muié, ela tá com umas cousas doida, ela endoideceu de vez e já num fala coisa com coisa, mudou a voz e fala como se tivesse dois dentro dela.

– Tenha calmo, meu bom homem, vá e volte para casa, irei pedir um cavalo emprestado e irei para lá, dar uma benção e ela ficará melhor, disse o sacerdote já levando o homem para a soleira da porta.

Era mais um oficio para os outros. Mas era algo que não era tão comum acontecer. Pegou seu Rituale Romanum, água benta e uma estola roxa. Não precisava de mais nada. Pegou um cavalo e seguiu rumo aos Tucuns, bairro pobre de pescadores e trabalhadores do Porto e lá numa casa pequena de taipa e telhado de palha espera a Dona Zulmira.

-Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Bradou o varão sacerdotal

-Para sempre seja louvado!-Ecoou de volta dentro da casa.

Eis então a permissão para a entrada. Seu Antônio esperava já o sacerdote e enquanto ia adentro do casebre viu deitada, e um amontoado de mulheres rezando seus rosários enferrujados de herança, pedindo a Deus a cura ou libertação da alma sofrida de Zulmira.

– Extra homini! Todos fora agora! Gritou com força Padre Antônio, para que todos saíssem.

Ficando sozinha com a doente, o sacerdote pode ver e analisar como estava à dita cuja, a que foi pedido benção.

A negra suava bastante e tinha os olhos esbranquiçados e as pupilas perdidas, seu cabelo esvoaçado num encaracolado estranho estava denotando descuido e sujeira. Aproximou-se da enferma e dirigiu a ela a oração dos enfermos, In Nómi Patris, et Fillis et Spiritus Sancti… Mas num súbito, Zulmira parou de ofegar e suar, não interrompendo o ritual de benção, contudo deixa Padre Antônio meio inseguro e num súbito alucinado, a sua fiel deu um imenso grito que resultou na queda de padre Antônio e a interrupção do ritual. Na vida de padre ocorrem muitas coisas, mas certas situações são tão insólitas, que quase não são documentadas. Eis uma situação não documentada! Aquela mulher que parecia estar à beira de um suspiro pré-mortem, estava de pé e tinha os olhos agora avermelhados e mãos rígidas que ia ao encontro do jovem sacerdote; ele tratou de correr ligeiro para escapar da fúria, mas ao se distanciar alguns metros, ouviu o brado afro a repetir: – Foges, por que sois fracos! Foges por que é fraco Antonino!

A disputa estava armada. O Padre sabia que aquilo não era normal.

O jovem presbítero ergue a sua mão e bradou com firmeza! Vadre retro Satana!In Nomi Domine! As palavras sacras, não geraram nenhuma calmaria na entidade adentrada no corpo da Negra, mas algo mais estranho ecoava em seu coração: Ela o chamara de Antonino, nome que só sua avó chamava e ela já haviam morrido há alguns anos e nunca tivera vindo nesta cidade, disso tinha certeza. A negra foi ao seu encontro e o mesmo o segurou com firmeza, Zulmira por ser corpulenta detinha uma força grande, adquirida no lido do campo e na vida e Padre Antonio, mesmo jovem e atlético, não detinha mais força que ela e estava sendo sufocado pelas suas mãos fortes. Mas a providência divina o salvou: Os moradores da casa entraram como tempestade e seguraram a velha negra com habilidade e salvaram a vida do jovem padre, que se recompondo tirou da algibeira sacerdotal a água benta e o rosário de ferro que ganhara no dia de sua ordenação.

-Será preciso uma oração de expurgação, só os desobrigados fiquem! Os homens e mulheres em pecado mortal, para fora!-Falou em tom firme o sacerdote

Persignando, Padre Antônio, começou o ritual, abriu o Rituale Romanum e abriu na seção “Exorcismus”, precisava fazer isso; a alma sofrida de Zulmira, dizia blasfêmias e ofensas aos santos, a Virgem Maria e ao próprio padre. Ele não sabia o que fazer. Seu coração estava para se destroçar. Amarram na cama a negra e começou o ritual.

(oração do ritual em latim)

O jovem presbítero estava exausto, a negra não cedia às orações e num súbito, ao redor da casa começou a se ouvir barulhos estranhos, como de vários passos a correr, circundando o casebre, como se preparando para uma invasão. Todos estavam aflitos, pois não se via viv’alma do lado de fora. Todos começaram a rezar, pedindo auxilio a Nossa Senhora para àquela hora demoníaca. O já cansado sacerdote continuava tão cansativa tarefa e a possessa estava desfigurada e suava sangue. A oração parou, a endemoniada gritava ardentemente enquanto ouvia-se uma chuva de pedras, indo do além sobre a casa! Algumas pessoas foram atingidas, mas não se podia parar o ritual e num súbito, Zulmira ergue o olhar para o sacerdote e disse: (em latim) Ainda nos veremos outras vezes, antonino… E ela desmaiou.

O ritual se encerrou. O Padre exausto e o povo amedrontado se sentaram no chão batido, e juntos agradeceram pela batalha, mas Padre Antônio saberia que haveria de ocorrer outras batalhasse ergue e recompondo-se subiu no cavalo emprestado e seguiu na madrugada adentro. Haverá outras batalhas para lutar, dentro e fora do homem…

Leonardo Rodrigues da Silva

 

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