O Parque, por Alexandre César

I

Era tarde,

E ainda cedo nela,

Havia o carinho do riso banguela,

O carrinho, o caminho e a boneca.

Talvez ainda não fosse o tempo da soneca

Em que teimamos acordar

Talvez ainda não fosse o tempo de falar.

Na boneca de lado, no carrinho deixado,

No carinho que ficou no caminho de terra.

No teatro de fantoches atuamos

Os primeiros toques.

Atos que inocentes, protagonizamos.

II

O dócil toque entre narizes

De longe lembra

O retrato fóssil

Que são as cicatrizes.

Que duram o tempo de recreio,

Do cordão de ouro no pescoço,

O receio, de subir o escorregador.

Até, cair no poço.

III

Éramos crianças a fingir que andam

Quando engatinham

E engatilham

As sílabas

Que teimam

Em dizer que amam.

Um amor de mentirinha

Como um céu de amarelinha

Que só existe neste parque

IV

Éramos de travessuras épicas

Como as de crianças no hospital

Sem piscina de bolinhas

E o alento do seio maternal.

Aumentava o desejo e a fome,

Da merenda que demora.

Onde a velha funcionária esconde

Uma cantina que servia catapora.

V

Num balanço alçar ao ar

Vitorioso,

Numa cantiga medonha,

O olhar

Misterioso, de adedonha.

Antes que a tarde cale e morra,

Antes que os pelos cresçam,

Os dois numa gangorra

Se encarando, desçam.

Do assento frio

De xadrez, fadado ao xeque-mate.

Deste infanticídio que é o parque

Do namoro adolescente.

Como a poente de sobreviver a Nagasaki

Que desce num corte suave

Como quem na manteiga faz carinho,

Mas, o pão com a faca parte.

Alexandre César