O Testemunho, por Ana Ferreira

     Numa tarde de domingo fui com minha dona até a Pedra do Sal. Era por volta das 17 horas, o céu estava com as nuvens acinzentadas, prenunciando chuva. Morávamos na Cidade do Vento, cerca de 20 km de distância da praia. Estacionou o carro na pista em frente a uns restaurantes. Descemos rumo as areias. Ela, muito feliz me sorria. Eu, abanei o rabo e ergui as orelhas contente também. Paramos num amontoado de mesas e cadeiras, escolhemos uma barraca para ficar, pois minha dona queria beber um refrigerante bem geladinho. Colocamos nossos pertences na mesa. Vi que onde sentamos havia duas redes armadas, lati para minha dona e corri até a rede, mas ela não se interessou. Então tratei de deixar para lá aquela ideia. Voltei para perto dela, ela riu e acariciou-me com brandura.

     Eu e minha senhora fazíamos tudo juntos, ela me treinara desde pequeno. Sei usar a pata e a boca para pegar ou guardar alguma coisa. Nossa vida era um pouco melancólica e sedentária. Passávamos a maior parte do dia separados, eu em casa e ela no trabalho. A rotina dela era bastante cansativa, trabalhava de domingo a domingo. O lazer do qual compartilhávamos se dava nos fins de semana, acontecendo de tempos em tempos nas últimas horas da tarde. De vez em quando fazíamos uma visita a Pedra do Sal. Nela nossas energias pareciam revigorar. Ambos sentíamos no corpo, ao sairmos do mar, a sensação de leveza e bem-estar.

     Minha dona ficou só de biquíni e convidou-me que a acompanhasse. Assim fiz. Corremos, nos aproximamos daquelas imensas águas e paramos na beirinha do mar, a areia, úmida da maré, revelava as pegadas dos andantes, visitantes de lá. Resolvemos entrar na água, estava fria demais, e o tempo me pareceu estranho. Logo começou a mudar a atmosfera, as nuvens antes cinzas, escureciam o céu e um vento assustador me causou arrepios. O negror do céu surgiu antes mesmo do anoitecer, por certo viria uma tempestade.  A minha dona não demonstrou espanto, foi se jogando nas ondas, “queria descer ao mar” como Ismália, “queria subir ao céu”. Tive muito medo, porque ela sempre lia para mim o poema que continha esses versos.

     Comecei a latir, latir e latir. Todas as pessoas estavam se retirando de lá e o ambiente se fechava cada vez mais, apesar disso ela nem se importou. Pegou em minha cabeça e fez um carinho dizendo: calma!, Prudêncio, daqui a pouco iremos. Não fique preocupado, relaxe. Lembra que já vimos a praia desse jeito? Sossegue! Mas não consegui relaxar. Umas gotas de água começaram a cair na minha cabeça. Percebi que minha senhora mergulhava e nadava, afastando-se de mim. A maresia enchia em abundância, meu corpo na água tremia pedindo por calor. Os pingos de chuva caiam em profusão. As ondas se avolumavam e nos repeliam para as partes fundas.

     Eu nadava naquele momento como um náufrago ao mar. Me desesperava a cada instante em meio a situação em que me encontrava. Voltei a latir num rogo que só hoje consigo compreender, mas minha dona estava imersa naquele céu de águas turvas onde era impossível atender ao meu pedido. Ela amava aquele mar, aquela praia… costumavam nos contar histórias sobre a Pedra do Sal. Alguns diziam que suas ondas eram bravias e que por isso pessoas descuidadas morriam nadando, caminhando ou sentadas nas pedras; outros diziam que uma pedra, a mais gigante de todas, já havia tragado muitos pescadores da região, a chamam de pedra monstruosa. Ela parece uma cabeça enorme, se alguém olhar bem para ela poderá enxergar uma face com boca, nariz e olhos.

     Embora nos falassem dessas histórias não levávamos a sério. Para nós aquelas histórias eram como os mitos ou lendas. Minha dona lia para mim a noite mitos de heróis que enfrentaram o Deus do mar. Ulisses era um desses heróis que afrontou o grande Deus Poseidon para voltar a Ítaca, sua terra. Minha senhora em alguns momentos brincava comigo me chamando de Ulisses e eu queria ser como ele, o herói.

     Eu lati, lati, lati e lati, minha dona ainda conseguia me ouvir, mas vir até mim era já impossível. Nem um ser vivo por perto além de nós dois. Mesmo com excesso de frio eu lutava contra as fortes ondas, mas para minha senhora, faltava-lhe forças. A violência das ondas deixava o corpo dela numa ressaca e languidez. Eu briguei com fúria para sobreviver e tentei uma aproximação de minha dona, no entanto fui transportado para longe. Ela foi sendo levada pelas gigantescas ondas rumo a enorme cabeça de pedra. Algo me puxava para o fundo e minhas patas estavam feridas devido tamanho esforço do nado. Quando ergui a cabeça, pois estive submerso, minha senhora era conduzida para as profundezas, “seu corpo desceu ao mar”.

Ana Ferreira