Pitsolidão, por Rosal.

Pitsolidão.

 

– A skol tá R$2,40 lá no pitstop.
Assim falei a Jefferson Portugal e a Sousa Filho – companheiros de letras na empreitada de Versania. Saíamos de uma reunião em hora tardia no centro da cidade. Era fim de semana e estávamos empolgados no reencontro nosso e dos demais.

O ponto é que, por desconcerto da conveniência, separamo-nos os caminhos e a cerveja da comunhão esquentou neste dia; não a da solidão da boemia de um bluesman de espírito deslocado por anacronismos ou o que seja. Segui com meus trocados e o estar só – que não é de mal, visto meu comodismo natural a estas situações.

As vezes sinto faltar, por mera casualidade de local de nascimento e tempo de mesmo, um permanente engendrado no topo da cabeça com brilhantina e um terno vagabundo para fazer modo; Johnny Cash ou Bill Evans ou mesmo um bolero de Buena Vista Social Club ou mesmo o inglês na língua bêbada de conhaque; ambiente soturno de hotel à J.D. Salinger no exemplar amarelo do Apanhador no Campo de Centeio que guardo junto aos romances americanos de minha biblioteca pessoal. Tudo sinto como meu num recôndito estranho.

Mas sou teresinense e resido em Parnaíba há pouco menos de três anos. Não pisei as calçadas de NY ou Los Angeles, assim como o ar que respiro não é o ar de tabaco e vigarismo do cinema noir. Em verdade, trajo ternos e roupas de aparente elegância padronizada, mas por necessidade de convenção como operador do Direito (ou iminente) e em meu semblante não trago suspeitas ou um amor que fugiu para Califórnia. Bob Dylan não me cabe – ouço Safadão nas quadras e na ”bicicleta de som” do Machado.

Sou desenganado e busco concursos públicos para estabilidade financeira. Nem mesmo um whisky escocês na empunhadora ou um rolex comprado de um conhecido porto-riquenho por mínimos dólares. Contudo, estou bem por minha condição – léguas distantes de frustrado ou invejoso. Carrego sangue latino-americano pulsando em minhas veias em uma nota nostálgica de Belchior. Não sou bluesman, tampouco do cangaço ou flagelado ou qualquer estereótipo (na grosseria dos que o fazem).

Afora isso, corre álcool em meu corpo nesta rede de meu quarto, como corria álcool nas rodas de um beatnik do norte do hemisfério – vale a patética aproximação para coerência narrativa. E afora isso, o vizinho de corredor adora Zezo por despertador aos sábados e há um ritmo confuso de sincretismo em minhas ressacas.

 

Rosal.

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