Procura-se Papai Noel comunista, por Rosal.

Procura-se Papai Noel comunista.

 

A cidade em luzes reflete a turva cidade. Ribalta do ano em lindos palcos de luminárias especiais, pisca-piscas e afins. Ao menos parte da cidade brilhando… Chamativa como a grinalda da noiva e o lençol daquele que jamais seria um convidado. E quanta magia na eletricidade! Volts e mais volts de felicidade e cartões de crédito rasgando maquinetas. A real serventia do 13º salário: presentes, convenções festivas e uma infinidade de passas. Seja Parnaíba, Teresina, Fortaleza ou a Pasárgada de Bandeira, o Natal é belíssimo (de fato) – assim como ofusca o saldo na carteira dos que ainda o tem.
É véspera, observo por um instante a manhã sob as árvores frondosas da Praça da Graça, tenho a igreja e as ruas que a circundam por minha vista. Uma Parnaíba travestida de alegria e um céu nublado feito prelúdio do ano que se segue. De repente a sinfonia de um escarcéu vermelho e branco (e não é torcida de time campeão); pois é um carro de som que carrega em uma ”carroça” por tração reboque, empanturrada de patrocínios, o nosso Papai Noel da Macavi ou Ortobom ou Armazém Caboclo ou Toureiro ou todos em parte. Decibéis a perder a conta e os tímpanos… Melhor que fosse por time de futebol – com exceção do Vasco, que não é bem time e não é bem campeão – ou até a bicicleta do Machado.
– Mas tu é chato!
Minha mãe costuma dizer se faço cara de fome para as serestas e sertanejos universitários que põe naqueles volumes. Acho que tenho ouvidos sensíveis, mas não é privilégio de minha sensibilidade os ruídos e as músicas de meu desagrado (até gosto de uma seresta ou outra – lembram-me infância, as lavagens de carros de quando acompanhava meu pai às margens da avenida Maranhão na capital). Os nocturnes de Chopin me incomodariam em um paredão de balada, não fosse absolutamente improvável que se ouça Chopin dessa forma um dia, que dirá um Papai Noel com trejeito de comerciante berrando propagandas em uma carroça motorizada.
– Oh diabo enjoado…
Resmungo em meio aos olhares cativos das crianças que são puxadas pela mão. Há, certamente, quem chame arrogância, azucrinação, enfado, mas aos meus tímpanos sensíveis e à minha educação cristã, não há nobre sentido e não há Natal em um Papai Noel de microfone e em sua parca comissão, por mais justa.
Tomei o caminho de retorno após o cronograma da ida ao centro. No trajeto, mais um senhor de barbas postiças e luvas brancas, agora em um posto Petrobras. Mais um aparelho de som com músicas natalinas, as famosas duas ou três.
Imagino a necessidade do sujeito de gorro vermelho na cabeça para se dispor a danças e saltos de bobo por sabe-se lá quantas horas em um posto, refém das musiquinhas repetitivas, da indiscrição dos que gargalham, da atenção patética das colegiais que esperam suas vãs, do calor, do suor por baixo das roupas pesadas, do cheiro nauseante de combustível, do meu olhar carregado de pena. Desconheço orgulho que resista a pena.
O símbolo do Natal é pago para fingir entusiasmo ao lado de falsas coníferas enfeitadas – talvez aquele Papai Noel da Praça da Graça estivesse mesmo a fazer propagandas de algum varejo que vendesse as tais árvores de material sintético. Nesta perspectiva, o Natal é uma ironia tamanha: volts de felicidade e o presente sem embalagem da Eletrobras no fim do mês – ou melhor, em janeiro.
P.S.: Creio que terei uma ótima ceia neste 25 que se segue. Campo Maior com a família é a tradição. Longe de meu bem, contudo feliz em verdade. Aproveitarei o que me for possível… Um feliz Natal às famílias, aos que não as têm, aos funcionários da Eletrobras, aos Papais Noéis comunistas do Brasil, indistintamente: a todos!

 

Rosal.

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