Quando calam os beijos, por Alexandre César.

Nunca foi tão difícil beijar teus lábios, que eram ainda mais macios que a ternura. É estranho perceber quando as gotas da chuva que não são iguais repetem o frio e eriçam os mesmos pelos que eram do teu toque, quando teu toque era primeiro e me aquecia. Meus pés sentiam o chão descalço que diferente das grandes dores dos poemas adolescentes não desabava, era o chão afinal. E final, termo não que não seja, mas por vezes gostaríamos que não fosse mesmo um arpejo de nota definitivo em uma canção dos Beatles, que de modo contrário a algumas situações podem ter bis. As notas finais quando vibram e que depois de encerradas ainda reverberam um arrepio que algumas vezes é velado aos olhos, assimilam se ao sentido que atribuímos em muitas ocasiões ao frio que se sente na pele. Geralmente é a humanidade dentro da carne sussurrando: “não sou invencível”.

Uma pedra pode em momentos ser suficiente para derrubar um colosso, um toque de lábios seja em uma fala ou em um beijo, pode ser a queda desse gigante insuficiente, embora ainda prefira pensar nesse toque como uma pequena rocha, Angelita bruta, não a que tange a queda, mas a que por último tremula depois que a poeira no chão esvai junto ao sopro destroçado do titã, agora imóvel em definitivo. Imagine não poder tremer de tanto frio, como o filho que impossibilitado de chorar pela mãe no natal observa e apenas observa o princípio do silêncio que ela ecoará, agora, eternamente.

Imagine que Peabo Bryson, calasse no refrão de Tonight i celebrate my love, e ainda que o piano seguisse o mesmo silêncio e que apesar de ter os dedos paralisados, pudéssemos ouvir o cetim À capella de Robeta Flack, seria provavelmente, apesar de acérrima quanto ao tom, igual ao coro do cio dos gatos na laje, um amor desafinado. Vou apenas mencionar o som das palavras que antecederam a primeira cena deste discurso, pois o conteúdo apenas a nós cabe respeito, mesmo uma vez que não inventando as separações, inúmeros casais que vieram e virão professem talvez as mesmas palavras. Percebe? Ás vezes as palavras roubam o lugar das gotas da chuva, e cabe tanto nelas como no silêncio. Que é a derradeira resposta de The music of the night que compõe a insatisfação do Fantasma mesmo após a progressão harmônica decrescente de seu sofrido monólogo, para que ele continue vivendo como nunca viverá flutuando na intoxicação açucarada que assumirá a memória de Christine.

E assim eram nossas vozes, como a cicuta socrática, amarguras de coerência e razão. Sem legado para nossos corações atenienses. Não é de meu intento declarar menção alguma a mortalha mórbida da poesia gótica nestas minhas palavras, quanto menos trajar esse manto, mesmo por que não concatenaria com o que me tenho de ti. Não falo de ressentimento apesar da tintura pastel azulada nas minhas construções gramaticais, falo de nós e do azar inocente de nossos fatos, que pra mim representam um filmete caseiro em cassete que vaza na vista vez por outra quando lembrado, e para ti… Não posso falar por ti… E é melhor que não possa, pois quando calam os beijos não há argumentos.

Pensei em terminar com essa frase: “E o que era pra ser um beijo de partida se torna o choro em sangue da última gota de lucidez do Édipo rei.” Mas me ri, ainda que sem graça, quando desejei não as gotas do sangue, mas a chuva primeira das nossas palavras. E já não seria eu verdadeiro, pois ao lembrar o calor que continha em teu queixo, meu corpo que não era mais gigante sentia frio.

 

                                                              Imagens: domínio virtual público

Alexandre César

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