Uma poetisa portuguesa, por Carvalho Filho.

Uma poetisa portuguesa.

 

Eu queria ter conhecido Florbela Espanca em seus tempos áureos, mas para isso eu já teria morrido, provavelmente. O que guardo dela, porém, é sua parte imortal, e não o pó da tumba. Às vezes imagino como teria sido Florbela, não a dos poemas ou contos, nem mesmo das cartas ou diário, mas a Florbela dos gestos que se perdem no tempo. Essa eu jamais conhecerei.
Como é estranho ter como amigos fiéis os mortos! É ter como horizonte um cemitério e como diário uma sepultura. Mesmo assim, a poesia de Florbela me diz coisas que violam aquilo que entendo por mim. E isso, poucas pessoas vivas o conseguem (se é que conseguem), quando muito, ultrapassam alguns milímetros da couraça.
Eu queria ter escutado a voz de Florbela Espanca, sido amigo das horas improváveis, pois é nelas que a amizade se descobre real.

 

Carvalho Filho.

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