A MENINA DO RIO

 

 

(Leonardo Silva)

O rio é sinônimo de vida que corre e a presença deste sujeito tão nobre,próxima a minha casa ressoa como sinal real de amor e vitalidade ,assim como de perigo e instabilidade.Aprendi a conviver com ele graças a meu pai,que nas caçadas e pescarias matutinas e noturnas.Caçar préas e veados,frangos d’água e rolinhas,pescávamos Tambaquis e Piabas para salgar e torrar para comer com farinha.Esta ventura era somente permitida aos homens e pais e filhos transmitiam a tons de sacralidade os atos e gestos da caça e pesca;mas entre as tarrafas e chumbinhos ,nos entremeios das atividades,sempre me deparar com uma figura singela: Maria Antônia era seu nome e era filha de uma ribeirinha viúva que morava nos arredores .Ela sempre apontava nas auroras da nossa atividade e permanecia nos admirando como se fôssemos uma pintura realista.A jovem Maria não ia mais a escola,para ficar cuidando das coisas de casa e ajudando a mãe a vender peixe no mercado.Ela sempre aparecia em nossa rua,com vestido  simples e bem surrado,caminhando até ao ponto dos velhos ônibus para ir a Ilha Grande,visitar os senis avós.

Os dias duros iam se aproximando de suas vidas. Num verão seco,de 1987, a casa da jovem Maria Antônia  pegou fogo;o velho casebre de taipa  e telhado de palha,incendiou com facilidade e o fogo voraz devorou tudo com a ajuda impetuosa do vento próprio destes dias e foi uma correria geral,onde todos acorreram com pressa ,temerosos que o fogo se alastrasse.Eu era um menino apenas,por isso fui limitado a observador pelos adultos e fiquei de “rabo de olho”,observando o desenrolar dos fatídicos momentos.Meu pai se juntou aos outros caboclos da vizinhança e com os baldes d’água e pás de areia tentaram afanar a fúria tempestuosa do fogo.Em meio as chamas,vi como  um súbito,uma silhueta pequena  e escura,como os carvoeiros…Era 

 

Maria Antônia !,trazia arrastando com uma força inapropriada à uma criança,sua mãe.Ela foi acudida pelos bombeiros civis da minha rua e salvaguardada.Alguns minutos depois,soubemos que sua mãe morrera,sufocada pela fumaça.Maria Antonia,ficou só e permanecia as suas rotinas e eu a admirava pela sua firmeza aos 11 anos…e eu cheio de medos e ela cheia de coragem.Ela foi embora ao longo de um ano.A idade dos amores chegou e ela se juntou a Zeca pretim  partiram,Veio 2 anos com a barriga cheia,pelas tampas e  arrastando uma meninada.rosto duro e cara de fome,voltou para a antiga casa afim de reconstruí-la,repetindo a solene sina da mãe,de cuida de casa ao lado dos filhos,suportando as dores e a pobreza,rezando as novenas solenes,entre uma Piaba e algumas moedas.Gosto de olhar as suas filhas brincando na praça e vejo,de forma sobrenatural,em seus rostos  a inscrição da genética das almas: Mulher Forte!

Eu e estas mulheres…

Mulheres fortes,meninas do Rio…

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