A Menina que olhava as estrelas (Leonardo Silva)

Ana era uma poetisa rara, ela era uma daquelas meninas únicas que transformam a própria vida em arte, ela era morena queimada pelo sol do Piauí e pelas suas correrias pelo caminho de carnaúbas e assim olhava as mudanças típicas do vilarejo que habitava. Amava ficar entre as mangueiras das praças a olhar as nuances de cores do céu e ouvir o gracejar dos passarinhos que cantavam em seus galhos. Ela era sorridente, de dentes brancos e sorriso largo e afetuoso. Sonhava em uma vida fora das quebradas que morava anseiava viver os sonhos das novelas que lia escondido do baú de sua avó que a criava com carinho e disciplina dura.
Tinha como livro preferido, um que contava a história de uma menina do campo que fugia para a cidade e depois de muitas aventuras, encontrava o grande amor de sua vida. Sonhava com os contos de princesa, adaptando-os a sua realidade, pois sabia o quanto era difíceis castelos, cavalos brancos, fadas e coisas afins. Quando chegava a noite, caminhava pelas vielas e casebres da sua localidade olhando para o alto, querendo alcançar às estrelas e voar com elas para o infinito, as via com força e vitalidade, devido a pouca iluminação do lugar onde morava; via claramente as constelações, os fenômenos atmosféricos e os astros vagantes, como cometas e as estrelas cadentes.
Ela crescia cheia de sonhos e já chegava à idade das decisões.
Os dias nem sempre eram tão bons, especialmente na semana, pois tinha que ir à escola e ela detestava a escola e seu regime formal da professora de matemática que a forçava estudar e decorar a tabuada. Sua liberdade consistia em correr livre e mergulhar nua no lago represado, próximo a sua casa e viver estes momentos ajudava a superar os demais dias obscuros da vida e sendo assim, decidiu: Jamais irei crescer! Odiava ver em seu corpo os sinais da maturidade sexual e física, repudiava os olhares libidinosos dos garotos aos nós redor e ter que usar roupas sensuais para atrair, ela queria mesmo era se esconder de tudo isso. Era feliz na sua própria “Terra do Nunca” e estava disposta a tudo para não ter que fugir dele. Mas os sonhos foram ficando, com o passar dos dias cada vez mais fastios os e era necessário repaginar, mas como esquecer as tardes de carnaúba e os banhos no lago? Parecia que isso estava dando seu adeus…
Um dia, no seu vilarejo, a velha professora de português morrera de uma apoplexia aguda e a secretaria de educação enviara um novo professor no lugar. Ele era jovem e dinâmico e isto chamou a atenção de Ana. Ele falava constantemente que precisava escrever mais e mais, para transformar a sua própria história e foi o que ela decidiu fazer: escrever!
Escreveu sobre os banhos no lago, sobre o namoro da sua amiga Zefa, das repreendas de sua avó, da ausência de sua mãe e do seu amor por livros e sonhos. O professor que havia chegado fascinou-se pela criativa de e habilidades de Ana. Um sentimento diferente estava começando a surgir neste contexto, mas o eu fazer? Ele um professor de 27 anos e ela uma adolescente de 17 anos, presa na 8ª série e cheia de sonhos. Ele ficou com medo de tantas coisas, especialmente de perder o seu emprego. Ana comentou com sua avó, sobre o que sentia e ela foi repreendida por ela “Professor é como padre, sagrado “-E ela se apaixonando por aquele homem de letras”“.
Os dias iam passando e Ana decidiu falar do seu amor a seu professor, mas ela foi surpreendida por um poema, de seu amante-professor:
“O LADRÃO DE ROSAS”
Era a flor e o cantor
Era a flor e o pássaro
Era a poesia e a falésia em perdição
Era a mulher e Deus
Dois amores, dois pensamentos.
Soou então canto lúdico
O grito de falsa liberdade dos homens e sábios:
“A razão, O sonho e a Modernidade”.
Tantos calados e tantos surdos gesticulam hipóteses vãs;
São homens e mulheres que perderam o primitivo sentido de ser o “EU”
Então um marginal aproximou-se dos loucos, surdos e mudos.
Cuspiu novas verdades em saliva, terra e mar.
Tantos novos sonhos surgiram
Novos antigos seres retornaram
Não enlouqueça as águas de setembro
Elas precisam seguir o seu curso, seu fim-começo.
Fim, começo, fim, começo…
Menina de olhos sonsos, acorde.
O que você viveu
Foi tolice para o tempo para o mundo;
Acredite
H á verdades que não sabeis;
Há sonhos que ainda podem ser realizados
Creia em mais uma vez ser rosa
Nos Sublimes Jardins do Amor.
Acredite nos bom ladrão
Que irá roubá-la do jardim
E egoistamente irá plantar-se em um vaso honorifico
Onde nenhuma rosa dormiu.
Acredite e espere.
Ainda há outros ladrões
Que esperam que acreditem no Jardim;
Mas o jardineiro do tempo
Não esperarão a sua atemporalidade.
Acredite; Acredite
Ainda virá o seu ladrão
Esqueça os que passaram.
Eles erraram o tempo
E perderam a chance.
Não se incomode com as feridas
O seu valor não mudará;
Só aumentará
Pois te tornas única
“A cada novo minuto…”.

Era um poema belíssimo, que fascinava seu coração. Ela sabia o horário em que ele ia embora e decidiu o esperar na saída da cidade. Ele surgiu numa motocicleta branca e se olharam… As mãos foram logo ao encontro uma da outra. Amar… Sensação de pavor e ardor, alegria e medo, antagonismo do coração. Ele a beijou com carinho e ela tentou retribuir, com seus lábios atrapalhados e desajeitados, para um primeiro beijo. Foi à luz do entardecer e embaixo de uma cabaceira torta, que este amor floresceu.
Eles se viam com frequência e já estavam todos desconfiando deste inusitado casal. Foram denunciados e o professor perdeu o emprego e ele foi ameaçado com justiça e tal, mas esta paixão quase insensata, não permitiu a separação. Ele foi trabalhar em outra cidade, próxima a dela, em uma universidade particular. Este amor mudou a sua vida, encheu de cores a cinzenta rotina pessoal, mas como ir ao seu encontro? Como avançar?
Ela decidiu lutar.
Terminou o ensino fundamental e foi à cidade onde ele morava e seu susto foi grande, pois já estava desistindo de lutar por amor. Eles decidiram se casar, por respeito a sua avó e casaram no cartório, para viver as suas paixões: Ela, escrever e ele, ensinar…
A menina escreveu seus sonhos e como eram belos. O tempo e os filhos vieram, mas ela sabia que a menina ainda estava lá, correndo entre as carnaúbas de suas memórias e vendo as estrelas de seu coração.

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