“A menina que se chamava Maria” (Leonardo Silva)

Maria é um dos nomes mais comuns em nosso Brasil e é algo tão comum em todas as famílias das cidades. Conheci muitas outras Marias na minha vida, mas uma delas me encontrou e ensinou-me a dar passos nas letras e nos livros. Seu nome era Maria da Conceição ou somente “Mariazinha”, como os amigos de pique e de cabra-cega a chamavam. Ela era dois anos mais velha do que eu e desde pequena, segundo reza a lenda, era amante dos livros; lia com maestria e simplicidade autores como José de Alencar, Machado de Assis, Camões, Erico Veríssimo e muitos outros e fazendo bom uso dessa bagagem literária me apresentou ao mundo das prosas e as poesias clássicas que enriqueceram a minha pobre culturazinha de leitor de Gibi e fotonovela. Retribui a ela, dando-a conhecer a vida dos prazeres menores da vida: fazer amigos, contar estórias mentirosas, cantar desafinado o coro dos contentes… Vi ,em meus 12 anos a alegria de viver este romance nascido das letras, Mariazinha era muito timída,quase não falava com outros colegas e tinha poucos íntimos(chego a pensar que em determinada fases,eu era seu único amigo, devido a seu caráter simples, singelo e recatado).

A conheci por acaso na biblioteca municipal, na seção de literatura, ela à busca de mais um clássico e eu tentando escolher o meu primeiro livro, quando de repente, sua mãozinha encontrou a minha no mesmo livro —“Dom Casmurro, de Machado de Assis”— e nos olhamos e ambos cheios de vergonha soltaram em um sopeteio livro quisto ao chão e nos abaixamos ao mesmo tempo e o óbvio choque ocorreu: as nossas cabeças se encontraram num encontro doloroso; caímos sentados com a mão sobre a testa engalada do choque e pude já sabe, que naquele dia nascia uma amizade e um amor que marcaria a minha vida inteira, a preço de dor e amor. Conversamos a meio tom sobre o ocorrido e falamos sobre o livro que escolhemos. Eu,ignorava o conteúdo e ela, cheia de sinopses me relatava as tantas obras Machadianas e o sua biografia de Imortal da Academia Brasileira de Letras. Fiquei maravilhado com as coisas que ela contava e surpreendia-me mais ainda em perceber que ao contrário das outras meninas da idade dela, ela preferia livros às bonecas, a escrever poesias do que pintar os lábios ou falar de novelas juvenis. Suas palavras eram um encanto só! Sem notar eu seguiria esta mesma sina, alguns anos depois…

A biblioteca era o nosso lugar de encontro preferido, especialmente na seção “Simplício Dias” onde se localizava os livros de literatura. Sentávamos-nos à mesa empoeirada do canto e conversamos a reto-tom sobre as nossas escolhas literárias e entre uma pagina e outra, ia desenrolando em mim um sentimento nutrido e fortificado em relação àquela menina de cabelos longos, óculos redondos, covinha pequena, olhos castanhos, sorriso tímido… O que seria? Eu me perguntava… A nossa relação literária fluía bem.Ela fez 14 anos e seu corpo mudara bastante. A menina que eu conhecia estava diferente e algo em mim mudara, mas permanecia em mim a certeza do amor das letras. Ela me inspirou a escrever cartas e dá-las a cada final de encontro (a você meu caro leitor que estranhou a arcaica forma de se comunicar, ressalto que não tínhamos aparelhos celulares de forma popular e uso de e-mails ainda era restrito a empresas ou usuários frequentes do cyber espaço) e eu escrevi uma multidão de cartas e elas trocadas a cada quinta-feira, após o nosso encontro na biblioteca. As suas cartas possuíam um perfume bem característico de Lavanda, o mesmo cheiro de seus cabelos. Falamos de tudo e principalmente das mudanças que ia ocorrendo conosco. Ela me falava do 1º sutiã e de como era desconfortável e eu falava das mudanças de voz e do excesso de suor que eu vivia, além dos pelos pubianos, que incomodavam e me causavam vergonha. Ela brincava que íamos acabar cuidando da biblioteca, de tanto viver lá; vivemos tempos bons e surpresas intermináveis. Uma quinta-feira do mês de julho, ela chegou meio triste e eu ansioso por comentar o encerramento do livro que li “Moby Dick” de Charles Dickens; ela estava triste e cabisbaixa, estava usando uma calça jeans (ela odiava!) e meio para baixo. Ela ficou calada e pouco falou. Eu indaguei  o por quê desta face negra e ela com uma resposta fechada e sem  rodeios: “Virei moça! É o meu fim! “Ela chorou e eu não sabia o que fazer. Coisas de mulher que eu demoraria a compreender e de fato parece que nossa relação estava mudando e ela principalmente.

Nem tudo foi rosa em nossa amizade: cobranças, ciúmes, critícas duras ao outro, cartas esquecidas, desinteresse… Mas algo sempre nos aproximava, nos ensinava e nos recriava a cada pedido de perdão. Éramos namorados em nossos poemas e livros, mas jamais na carne e na alma. Nossos beijos eram vividos nos contos e nosso amor nas poesias líricas, mas eu queria ir além e eu acho que este era o meu engano pessoal: Ela jamais me amou como um homem, e quis por dez tostões de poesia e ilusão literária, mas menino eu era e isso não me importava tanto. Anotei seu nome em um livro de matemática, para ver se eu conseguia amar a matéria, ela desenhou em caracteres medievais o meu nome em seu caderno e no seu armário. Era um amor puro e não sabíamos a força que detinha nele, mas ao chegar 24 meses e 15 dias desta bela história, ela foi morar com os tios em Brasilía, para continuar os estudos. Resolvi amar por cartas e enviei algumas, mas sem resposta…Ela foi embora, mas estava sempre em mim. No dia do meu aniversário de 14 anos ela reapareceu. Estava linda, como uma princesa de Grimm!Fomos passear e ela me beijou como uma poesia beija uma alma apaixonada… Foi intenso e vivido, doce e amargo, mas eterno em minh’alma.Ela partiu e hoje é responsável pela assessoria de imprensa do gabinete da presidência. Ela me amou e eu amei não a mulher de hoje, mas e menina dos olhinhos pequenos e da covinha singela.

Amores pequenos, mas que duram além da vida…

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