Carnavaia, por Alexandre César

Um misto de Arlequim e Nostradamus, o folião dos foliões, acreditem ou não, o cargo mais importante do reino. Semelhante a um jornalista dos tempos modernos que uma vez credenciado transita entre os meandros de toda a configuração social. É de certa estranheza tal afirmação, mas vamos ao princípio do poder, o rei decide que decisões serão tomadas para a prevalência do reino, seus auxiliares o suportam no que diz respeito às diretrizes de suas tomadas de decisão e todas as demais configurações abaixo se assentam basicamente em apetecer e nas mais baixas ainda, claro, sobreviver ao custo das mudanças.

Ora, onde se enquadra então o bobo da corte nesse emaranhado monárquico? Bem, ele é digamos o Leonardo Dicaprio da realeza, atuando diferentemente do que é a ele atribuído enquanto divertimento e mera atração. A função do nosso protagonista travestido de coadjuvante é a de agir como mediador e buscar soluções para os problemas que coçam na orelha real, quase que como contratado para entrar na mente do seu senhor e desembaraçar ideias na espera de que se tornem medidas ponderadas como as que se esperam à envergadura de um rei.

Semelhante ao personagem Cobb de Dicaprio na obra de cinema A Origem de 2010, onde ao construir camadas de “realidade” dentro dos sonhos de pessoas específicas, induze- as a moldar a própria opinião, como quem convida a uma valsa, sutil, como um flerte de mulher casada. Deste modo o único dentre os humildes, o bobo, tem em suas mãos o poder (quem sabe despretensioso) de sugerir com base na análise da conjuntura, e no ângulo do arreio de sua calça, uma mudança de regime ao seu empregador, o único plebeu, friso, que tem esta cédula em mãos, e com a artimanha do riso transita entre os gumes da performance  jocosa, que sucinta neste caso a ação política. Fazendo da piada que ele próprio representa, o ausento do pavor nos rostos de seus ofendidos.

Imagine que com toda a corte reunida para celebrar uma conquista de guerra, um arlequim sentasse à mesa de seu rei, feito piada, e no meio do banquete lhe vedasse os olhos com suas luvas grotescas e tingidas de brincante, e transpassasse-lhe uma fita de seda e na frente de todo o reino com a boca cansada de empunhar um riso de satisfação, o arlequim chorasse diminuindo lentamente a graça ao seu redor, e dando lugar ao pasmo silêncio, uma vez que se veria que até mesmo o rei foi cego em instantes por um bobo, e feito um! Que para agradar a corte, permitiu se guiar na zombaria, mal sabendo que mais inconsequente é quem se deixa levar pelo inconsequente, que tipo de sátira seria essa? Uma marchinha quem sabe, rumo à hipérbole dos vícios e jeitinhos que aplaudimos esse ano ao som de Carnavaias. Meu anseio de bobo é que deixemos de acreditar em bananas vestindo coroas de abacaxi. Boa leitura!

 

Editorial do Piagui impresso do mês de fevereiro.

 

Alexandre César

 

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