Das bancas de madeira aos dias de hoje

      Até o fim da década de 60, as bancas de revista em Parnaíba, assim como em várias partes do Brasil, eram bem diferentes de como conhecemos hoje. A distribuidora Abril, empresa que comandava a distribuição das principais revistas, resolveu financiar a construção de bancas de ferro, no lugar das que existiam antes: as de madeira. Dois senhores estiveram nessa época e acompanharam todo o processo de mudança, deixando suas marcas até os dias de hoje.

        O primeiro foi Aloísio Sousa Cruz, o Seu Aloísio, como costumam chamá-lo, cearense de Santa Quitéria, de 20 junho de 1931. Com 10 anos de idade veio ao Piauí, mais precisamente para Campo Maior, de onde fixou residência até o limiar de sua juventude, quando então se mudou para Parnaíba, tornando-se “um parnaibano de coração”. Nos anos 50, trabalhou em várias empresas: “trabalhei na loja Marc Jacob, na Sulamerica seguros, depois fui pra Fortaleza, trabalhar no deposito de sola…”. A sola, nessa ocasião, era produzida em Parnaíba e enviada ao depósito em Fortaleza, porém, o curtume não conseguiu agüentar a demanda e Aloísio acabou voltando para Parnaíba.

        Ao regressar, já década de 60, Aloísio recebeu um convite de seu cunhado José de Morais Véras, mais conhecido por Zequinha da Coca-Cola, para trabalhar no ramo das revistas. Como Zequinha era dono da distribuidora, Aloísio passou, então, a trabalhar na distribuição e venda dos periódicos: “eu era o responsável pela distribuição; recebia a revista, anotava e distribuía para o pessoal… Treinei muita gente para assumir as bancas”.
Na década de 70, com banca já firmada na localidade próxima a ponte Simplício Dias da Silva, começou a treinar pessoas, no intuito de que elas assumissem as bancas existentes. Empreendedor, “Aloísio gostava de ajudar os iniciantes, ao tempo que batalhava na vida, em prol do sustento de sua família”, como lembrou a sua esposa, Carlota de Moraes Cruz.

ImagemBanca do Louro

          Um dos seus estagiários foi Francisco das Chagas Sampaio, rapaz da cidade de Buriti dos Lopes, nascido em 22 de agosto de 1954, e que veio aos 17 anos para Parnaíba e, logo, começou a trabalhar no comércio: “Comecei trabalhando numa loja de vender redes, durante um ano e  meio, aí, depois, fui trabalhar em banca de revistas, Estudava a noite, trabalhava durante o dia”, e brinca,  ao lembrar do nome que arrumaram para ele, “Louro”: “Peguei esse apelido de Louro no primeiro ano que eu fui trabalhar em banca de revista, foi até um senhor que morava em frente à praça Santo Antônio que falava: Que negocio de Chagas… é louro, tu não é louro? Então é louro!” (sic).

ImagemBanca do Vicente

          No início, Francisco tinha uma banca de madeira, como era de costume na época, na Praça Santo Antonio (em frente onde, hoje, é o Biola), ele, Louro, recorda:“Comecei fazendo um estágio com seu Aloísio de uma semana, em janeiro de 1974, no fim desse mesmo mês eu assumi uma banca que estava fechada na praça Santo Antônio, trabalhei lá até 1978…”,ainda ele: “Quando eu trabalhava  na praça Santo Antônio, quem trabalhava na praça da Graça  era o Vicente, em frente a Igreja do Rosário e a Marc Jacob”.

         Em 1978, a Praça da Graça estava fechada para reformas, a banca que antes ficava em frente ao antigo Palácio dos Móveis e que, hoje, é a Receita Federal, terminada a reforma, em 1979,  deslocou-se para onde se encontra atualmente, em frente à Caixa Econômica Federal. “As vendas melhoraram quando eu mudei pra Praça da Graça, também fui fazendo amigos, fregueses que ficaram comprando sempre na minha banca…”. Depois que o Zequinha da Coca-Cola faleceu, Parnaíba perdeu a representação, que passou a ser Teresina. Nos últimos anos, cada dono de banca passou a receber seu pacote de revistas, o que diferia de antes, onde eles podiam escolher na própria distribuidora da cidade.

       “Seu Aloísio”, hoje, tem cinco filhos e 15 netos, uma família grande, que tende a crescer mais ainda, e “Louro” é casado com Maria das Dores Carvalho Sampaio, dessa união nasceu um filho, que já trabalha na mesma profissão do pai. Falar da trajetória dos dois (Aloísio e Louro), e de suas bancas de revista, não é apenas contar mais de 30 anos da história de vida de dois respeitados senhores, é mais que isso, é lembrar um pouco da história da própria cidade. Quantas personalidades anônimas ou célebres já não compraram jornais e revistas nas mãos dos, aqui, ensaiados comerciantes, e aproveitaram para pôr o “papo em dia”: saber das novidades, muitas vezes até travar verdadeiros embates ideológicos, ou despejar críticas etc. Confesso que há 20 anos freqüento as bancas de Parnaíba, quase que diariamente, porém, sempre me firmei mais nessas duas, pois foi onde criei laços de amizade e respeito indissolúveis. Sentimentos esses que surgiram com o decorrer do tempo, através do bom atendimento de ambos, ponto mais importante para qualquer tipo de comércio que pretende atravessar 20, 30, 40 ou mais anos!

Claucio Ciarlini (2008)

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