FLOR DE CARNE DE SOL

me encontro preso num corpo humano

transbordante de pesares e vilezas

parnaibano e com a carne comida de sol

 

tenho os pés à flor da pele

fincados no concreto

 

tremula flácida a bandeira do piauí

sem nada dizer-me

nem sequer um arroto

 

não quero embrulhar-me neste manto

disto basta o estômago vazio

basta o hino irritante

e os caroços que coço

de meus pés cansados e feridos

 

quem dera um bálsamo de flores

como um rosal cheio de ternura

para trazer-me alguma beleza aos olhos

e aliviar-me o peso dos ombros

 

imagine mulheres de rosas sem espinhos

milhares de moças bem intencionadas

que não aprenderam a moldar corações

 

imagine só por hoje

uma cerveja gelada paga por um amigo

 

imagine o perfume da moça que passa

no mesmo instante do último gole

seria formidável cheirar uma flor assim

 

mas me encontro preso

num corpo humano parnaibano

de carne comida de sol

 

e tenho os pés de concreto

fincados à flor da pele

enquanto tremula lenta

a bandeira de meu piauí

 

dizendo-me apenas que não vou conseguir

o bálsamos de flores

rosal de ternura

que outrora benvindo quebrou-se

 

sou apenas um cidadão comum

como esses que se vê na rua

tenho bons modos

e vejo show de mulher nua

 

tenho o sol na cabeça

e a carne comida de quentura

sou rapaz latino americano

e não vou a lugar algum

 

e ainda que seja água de barro ou chuva de março

tenho um medo besta de avião

 

 

Alexandre César e Daltro Paiva

DEIXE SEU COMENTÁRIO