Impérios, por Rosal.

Impérios.

 

Sentei-me uma das mesas da Holy Hand numa noite de quarta-feira. A semana parecia duas ou três em extensão. Os dias como uma segunda de manhã após uma ressaca à véi de bar ou playboy da zona leste da capital. Mas apenas três dias se passaram da semana… É dessas que aparecem sem convite, brigadas com o chuveiro e o desodorante, esquecidas de suas escovas de dente. Assaltam a geladeira e arrotam sem pudor o tédio de um Baudelaire. Eis mais um Decreto Imperial de Dom Spleen, o Moderno: os que passam, o balançar das copas, o feirante silencioso e suas laranjas, o alarme inútil do segurança de bairro. Tudo é parte: são as cláusulas do Decreto; subjugo-me ao desmando do cotidiano e este permanece o mesmo de antes, eu que sou outro por enquanto.
Augusto Freire, mestre cervejeiro e douto em humildade, há um ou dois anos, no Lima Limão, contou-me das cabeças de gato. No Ceará é ou era de costume chamar os cabeçudos da terra de ”cabeça de gato macho”. Uma mugangagem e um ensinamento de grande valia. Hoje já identifico o sexo dos gatos em um primeiro olhar – digo que é talento para os desavisados e depois da risada cito meu amigo alquimista de levedo e malte.
O caso é que ao lado de minha mesa passara uma gatinha alva rajada de mel. Muito dona. Não se assustara na algazarra dos food trucks ou do hippie de sotaque sulista que cantava alto Engenheiros do Hawaii com o acústico em maior. Tinha a traseira de ossos mais larga, como se experiente na maternidade dos bichos. Transitava indistinta por entre pernas de madeira e carne. Defronte de onde eu estava, havia uma família, pelo pouco que captei dos diálogos. Mãe, filhos – um garoto de traje fantasia e uma menina pouco menor que ele. Aparentava, o garoto, um príncipe ou um soldado ou um herói de contos de fadas.
Não saberia dizer se por natureza ou se enviado do brio do personagem, o menino confrontou a senhora da praça. E era herói de guerra contra fera felina. O homem e a besta. Ria na pose de Hulk o menino, o ignorava a gatinha rajada. E então repetia-se o espetáculo. Aquela risada que os anos encareceram, ei-la morta em minha boca fechada e ali achada tão fácil; pequeno Alexandre, pequena Roma e Mongólia no riso frouxo do domador de mansidões. Tudo pequeno, plausível e nostálgico como um poema de Adélia Prado. Seguiam em séquito a irmã e dois outros garotos que antes brincavam em um tablet; a gatinha foi-se por becos sombreados de cadeiras, serena rainha do conflito.
Ambos gloriosos os dois impérios daquela quarta. Eu, Rosal, de glória pouca e fama pouca, permaneci a observar o fim do ato. Presto contas neste domingo ao meu Império, que não vence ou sabe de príncipes risonhos por serem infindos seus reinos de imaginação; tampouco sabe meu Império dos mágicos feudos que se escondem nas pupilas felinas de mel e neve. Tomei o caminho de volta ao apartamento 107 e no trajeto me escoltavam centenas de flores do mal e a solidão.

 

Rosal.

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