Ponto cego, por Rosal.

Ponto cego.

Lembro-me vagamente do enredo de um filme americano que assisti há um par de anos, tratava da temática do suicídio, uma espécie de tragicomédia. Paixão Suicida era o título, sob direção de Goran Dukić, cujo desconheço os demais trabalhos. Neste longa o protagonista deixava cair, por descuido, diversos objetos no tapete do carona do carro de um amigo. Misteriosamente esses objetos eram dados por perdidos em um vácuo interespacial ali instalado – sim, no tapete do carona de um carro popular.
Havia um portal dimensional curiosamente tratado com uma naturalidade fantástica – e me utilizo do adjetivo ”fantástico” no sentido próprio de fantasia, por indulgência e por economia de veneno. Em um bom número de cenas, um bom número de óculos escuros (se outros objetos, não me recordo) de repente viajavam das mãos desatentas do protagonista para o portal digno das mais vãs ficções científicas.
O que se passou com este que vos escreve fora caso semelhante. Corrijo-me, não trato de obra à Asimov ou George Lucas, é mero relato, todavia. Não me aprofundo em espaços interdimensionais ou buracos de minhoca, porém é certa a semelhança nos elementos carro popular e objeto desaparecido; desta vez não foram óculos escuros, inclusive por não possuir um exemplar que seja, fora um celular. Meu Moto G2, o preto velho, companheiro de três longos anos, com sua tela trincada em inúmeras partes e a bateria viciada, cronicamente desconfigurado, tanto que já não mais recebia ligações – irônico um celular incapaz de receber chamadas -, mas mesmo com esses transtornos eu nutria por ele um saudoso afeto.
Instauradas as buscas no Fiat de meu sogro, nada encontrado, e então na cama, na rede, no quintal, na cozinha, por baixo de cada almofada, cada utensílio que avistava, cada palmo de azulejo, cada poeira remexida e ainda nenhum preto à vista. Duvidei de minha sanidade, alucinava memórias de ter visto o celular em tal ou tal local e então danava-me a procurar novamente. Talvez tenha revirado a cama e seus lençóis uma dezena de vezes até apaziguar as buscas, incrédulo de batalhar com aquele preto uma outra vez.
Quando me questionavam sobre o ocorrido, desmentia, esquivava como podia, constrangido pelo absurdo de perder um objeto tão essencial atualmente da maneira tal qual como foi; um ”extraviado” entredentes era tudo que o bom humor e a oratória me permitiam na resposta, dado o apego ao ser honesto. Tentei-me a culpar uma inocente sem uma gota de pudor na consciência; a mais inocente dentre as que o são, tão quanto uma criança ou uma bala de fuzil: a enérgica cadelinha com sua língua de fora e tantas vezes com os dentes à mostra, culpei-a, quase condenei-a no júri de mim mesmo: a inimputável da qual tudo se espera.
Reconheço que a incomunicabilidade respaldada não é ruim para um espírito escapista como o meu; surge espaço para o silêncio íntimo da ausência e no não dito há a paz dos instantes – ficar sem WhatsApp é a tangente do mundo. Mas o estado de incomunicável não é permitido. Às tangentes, como de costume, cabem os olhos de viés. Passadas poucas semanas e o privilégio me é revogado pela necessidade que invade aos supetões: a meu pedido, o novo celular à mão.
Pois, já reintegrado ao mundo, por algum acaso que ignoro, tomo assento no carona do Fiat de meu sogro. No tramitar da viagem minha namorada escorrega seu celular para debaixo de meu banco e pede a gentileza de que eu o procure, assim faço, naturalmente. Em um primeiro olhar avisto a parte superior do aparelho, a que consta o espaço de inserção do cabo de fones de ouvido, mas estranho a cor negra, visto o metálico do celular que procurava.
Apanho o objeto.
Naquele primeiro segundo sou eu mesmo um vácuo interespacial, a exemplo do longa de Dukić. O segundo em que fitamos o horizonte alheio e somos alheios ao horizonte, o ponto focado no nada, onde toda consciência se espalha fingindo mirar quando não tem olhos, fingindo atenção quando é outra e é abstração. Não ouso descrever a expressão que tomara meu rosto, sei apenas da vertigem dos pequenos espantos, mas creio que corado, se alguma carência de melanina permitisse em minha pele.
Eu, que culpei a eterna inocência de uma cadela, mal sabia que os reais criminosos eram os duendes.

 

Rosal.

DEIXE SEU COMENTÁRIO